Quando o absurdo silencia as diferenças
- Zé Maia
- há 1 dia
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Há acontecimentos tão graves que suspendem, ainda que por um instante, as divisões que costumam nos separar. O caso do cãozinho orelha — um animal real, indefeso, brutalmente assassinado por um grupo de jovens — produziu exatamente esse efeito raro. Pela primeira vez em muito tempo, não houve disputa de narrativas, apropriações ideológicas ou relativizações convenientes. Houve indignação comum.
Direita e esquerda reagiram juntas. Religiosos e não religiosos falaram a mesma língua. Pessoas que discordam de quase tudo concordaram em algo essencial: aquilo ultrapassou qualquer limite aceitável. Não se tratava de política, fé ou visão de mundo. Tratava-se de humanidade básica.
A força simbólica desse episódio não está no horror em si, mas no fato de ele ter exposto um vazio que, paradoxalmente, uniu. Um vazio de sentido, de empatia, de propósito — um ato gratuito, sem causa, sem mensagem, sem justificativa possível. E foi justamente essa ausência de significado que provocou uma reação tão ampla. Não havia o que defender, interpretar ou contextualizar.
O cãozinho orelha acabou se tornando um ponto de convergência inesperado. Não por representar uma bandeira, mas por representar aquilo que não deveria jamais ser normalizado. Um limite intuitivo que quase todos reconheceram ao mesmo tempo, sem precisar combinar discursos ou alinhar posições prévias.
Esse tipo de união é raro porque não nasce de ideias sofisticadas, mas de algo mais profundo e silencioso: a percepção coletiva de que certas coisas não admitem cinza. Que há atos que não são debate, nem provocação, nem “excesso juvenil”. São apenas inaceitáveis.
O que esse episódio revela é que, apesar do barulho constante das diferenças, ainda existe um terreno comum onde a indignação é compartilhada. Um espaço onde o cansaço diante da futilidade e da violência gratuita fala mais alto do que qualquer divergência histórica.
Talvez a maior virtude involuntária do cãozinho orelha tenha sido essa: lembrar que, em meio a tantas trincheiras, ainda há momentos em que os opostos se reconhecem no mesmo sentimento. E quando isso acontece, não é pouco.









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