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"Tomara que você seja deportado": Quando o ódio vira frase comum


Uma sociedade distópica é uma forma de organização social em que as promessas de progresso, ordem ou segurança existem apenas na aparência, enquanto, na prática, predominam opressão, desigualdade, desumanização e perda de liberdades.


Por Zé Maia


Há frases que deveriam causar escândalo sempre. Não importa o contexto, a época ou o país. Frases que, ao serem ditas, deveriam imediatamente acionar um alarme moral coletivo. “Tomara que você seja deportado” deveria ser uma delas.


O problema não é que essa frase exista. O problema é que ela deixou de chocar.

O que o livro "Tomara que Você Seja Deportado" expõe — e o faz de maneira incômoda — não é apenas o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos. Isso seria uma análise insuficiente, quase confortável. O que está em jogo é algo mais profundo: a transformação da crueldade em linguagem cotidiana, repetível, aceitável e, pior, banal.

Quando uma sociedade passa a desejar a expulsão do outro com naturalidade, ela não está discutindo imigração. Está negociando os limites da própria humanidade.


A deportação, nesse contexto, deixa de ser um ato administrativo e passa a funcionar como ameaça simbólica. Não é mais sobre fronteiras; é sobre pertencimento. Sobre quem merece estar, existir, ocupar espaço. A frase carrega em si uma sentença moral: você não faz parte, você é descartável, sua ausência é desejável.


O mais perturbador é perceber que esse discurso não permanece restrito a palanques, redes sociais ou gabinetes de governo. Ele escorre. Infiltra-se. Ganha vida própria. Passa a ser repetido por vizinhos, colegas de trabalho e, num sinal claro de falência ética, por crianças em idade escolar.


Quando crianças aprendem a desejar a deportação do colega, não estamos diante de um problema de comportamento infantil. Estamos diante do colapso do pacto social. A escola — espaço de formação democrática — torna-se palco de reprodução do ódio legitimado pelos adultos.


Há quem argumente que tudo isso é consequência inevitável de crises econômicas, pressões migratórias ou falhas institucionais. É uma explicação conveniente, mas perigosa. Crises não criam valores; elas apenas revelam quais valores já estavam disponíveis para uso.


O que se observa é a consolidação de uma democracia formalmente intacta, mas eticamente corroída. As instituições continuam funcionando, as eleições continuam ocorrendo, as leis continuam sendo citadas. Ainda assim, algo essencial se perdeu: a capacidade de reconhecer humanidade no outro, especialmente naquele que não se encaixa.


A grande perversidade desse processo está em sua aparência de normalidade. Não há tanques nas ruas, não há suspensão explícita de direitos para todos, não há ruptura dramática. Há apenas procedimentos. Protocolos. Palavras. Muitas palavras.

E palavras moldam mundos.


Quando o vocabulário político transforma pessoas em “invasores”, “ameaças” ou “problemas”, o próximo passo deixa de parecer extremo. A exclusão passa a soar racional. A violência, defensável. O sofrimento, inevitável.


Talvez a pergunta mais importante não seja quando as democracias caem, mas quando começam a aceitar pequenas desumanizações diárias sem protesto. Quando toleram que a dignidade seja negociável. Quando permitem que frases como “tomara que você seja deportado” circulem sem vergonha.


Porque a distopia não se anuncia com sirenes. Ela se instala quando o intolerável deixa de incomodar.

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