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O Mito e a Arte de Cair para Cima

	Foto:  Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Foto:  Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Queridos leitores e leitoras, vamos combinar: se política fosse luta de boxe, Bolsonaro já teria levado mais socos que saco de treino de academia de bairro. Desde que deixou o Planalto, a Rede Globo e boa parte da imprensa o tratam como protagonista de um reality show chamado A Queda do Mito. A cada episódio, um novo escândalo, uma nova investigação, um novo “agora acabou pra ele”. Só que, curiosamente, o público não muda de canal.


No último domingo, a Avenida Paulista se transformou num mar de bandeiras verde-amarela e selfies numa manifestação em apoio a Bolsonaro — mesmo sem a presença física dele. Foi um lembrete claro de que, para o desespero de muitos, o ex-presidente ainda arrasta multidões à distância. É como aquele personagem de novela que deveria ter morrido no capítulo passado, mas ressurge maquiado e com mais falas. Na Paulista, mesmo à distância, ele deixou claro que ainda domina o jogo mais perigoso: o da emoção. Enquanto rivais falam de “responsabilidade fiscal” e “índices de melhoria”, ele fala de “liberdade” e “povo oprimido” — palavras que dispensam PowerPoint, mas inflamam corações. A mensagem foi clara: a direita, por ora, tem dono. Lula tem a máquina; Bolsonaro, a mobilização.


E essa força não fica só nas ruas. No Congresso, parlamentares bolsonaristas partiram para a obstrução física, impedindo os presidentes da Câmara e do Senado de conduzirem as sessões. O objetivo? Forçar a votação de três pontos estratégicos para sua base: a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, o fim do foro privilegiado, e o impeachment de Xandão. Essa cena absurda revela não só a radicalização do debate, mas também o desprezo pelas regras mínimas da democracia.


O Datafolha confirmou a fratura exposta no país: 48% defendem a prisão do ex-presidente; 46% são contra. Empate técnico que expõe um dilema maior: não se discute apenas se Bolsonaro deve responder por seus atos, mas se a lei vale para todos ou se a política segue sendo um escudo para alguns.


Para quem sonha com menos polarização, péssimas notícias: ele não parece disposto a virar página da história. Se depender dele — e dos que lotaram a Paulista —, 2026 já começou. E quem acha que manchetes ou operações policiais bastam para desmontá-lo, erra o alvo. Bolsonarismo não se destrói; disputa-se.


Sua sobrevivência tem método. Primeiro: a vitimização profissional. Quanto mais apanha, mais reforça a narrativa de que é alvo de um sistema que teme “o povo de bem” — expressão que funciona como senha de entrada no clube dos fiéis. Segundo: a polarização, infinita. Para quem rejeita Lula, Bolsonaro é visto como o único com coragem de enfrentar o sistema, ainda que fale com frases toscas e improvisos de mesa de bar. Essa falta de polimento, para seus seguidores, é sinal de autenticidade.


No campo conservador, não há sucessor. Tarcísio e Zema preferem a sombra. Sem herdeiro, o trono da direita continua ocupado. E há o fator emocional: Bolsonaro não é apenas político, é tótem — contra esquerda, STF, imprensa, globalismo e, se preciso, contra as Emas do Palácio da Alvorada.


E o enredo ganhou tempero externo. Donald Trump, de volta ao centro do palco mundial, incluiu o Brasil em sua lista de desafetos. As tarifas impostas a produtos brasileiros não foram só uma medida econômica: foram um recado geopolítico, um “não mexam com o Império, ou a punição será virulenta”. Um gesto que atinge Lula diretamente, mas que, de tabela, oferece a Bolsonaro a chance de posar como aliado natural da potência americana — e de reforçar a narrativa de que o “sistema”, interno e externo, o teme.


No mesmo pacote, Trump ainda disparou contra Alexandre de Moraes, aplicando medidas e sanções. Para Bolsonaro, é presente de aniversário antecipado: ver seu maior inimigo no Judiciário sendo atacado pelo homem mais poderoso do mundo é combustível puro para inflamar sua base. No imaginário bolsonarista, isso não é diplomacia — é justiça divina com sotaque americano.


Bolsonaro não sobrevive por acordos partidários ou propostas consistentes. Sobrevive por ser símbolo de resistência a um establishment que milhões julgam hipócrita, seletivo e alheio à vida real. Enquanto o país oscilar entre amor e ódio, ele continuará no ringue — e, pelo visto, ainda com fôlego para mais alguns rounds.


E aqui, permito-me abandonar o tom analítico: este cenário me entristece e preocupa profundamente. Porque não se trata apenas de um homem ou de um partido, mas de um país que parece preso em um ciclo de confronto e ressentimento, onde as pontes são explodidas antes mesmo de serem construídas.


Para os papais, um belo dia: curtam seus filhos, pois melhor que eles não há.


Por Filinto Branco – colunista político

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