Entre Tarifas e Terras Raras: Lula Tenta Manter o Ringue Político
- Filinto Branco
- 27 de jul.
- 3 min de leitura

Volto ao tema da semana passada não por falta de assunto — 2025 anda fértil —, mas porque o caso escalou rápido, ganhou fatos novos e não saiu do radar da grande imprensa. A questão das terras raras brasileiras, até então nos bastidores, emergiu como peça central. Além disso, surgiram críticas públicas e outras nem tanto, que merecem ser enfrentadas de frente.
Zé Maia, no Última Hora, publicou um texto crítico ao meu artigo, bem articulado, no qual sugere que Lula pode estar fabricando uma crise desnecessária com os Estados Unidos. Segundo ele, outros países afetados pelo tarifaço de Trump preferiram negociar — e conseguiram acordos razoáveis. O Brasil, por outro lado, teria optado pela rota do confronto.
A crítica é pertinente e encontra eco, aliás, em outro texto — este não publicado, que me foi encaminhado no privado — bem menos sutil: nele, Lula é acusado de agir por impulso ideológico, de transformar um tropeço diplomático num cabo de guerra pessoal, e de abrir caminho para um isolamento internacional justo quando o país precisa atrair investimentos. Em resumo: enquanto o mundo negocia, o Brasil reage como se estivesse em 1964.
Pois bem. As críticas ajudam a pensar, mas talvez estejam subestimando o que está em jogo. A tarifa de 50% imposta por Trump a todos os produtos brasileiros não veio após uma rodada fracassada de conversas. Ela veio direta, seca, unilateral — com um recado quase infantil na lógica: “comigo é assim”. E, embora embalada como proteção ao trabalhador americano, a medida carrega camadas bem mais profundas.
Uma delas ficou clara nos bastidores da Casa Branca: Trump justificou a medida como resposta ao que chamou de “perseguição política” contra Bolsonaro. Ou seja, além de tarifar produtos, resolveu pautar o sistema judiciário de outro país. A defesa de seu aliado virou desculpa oficial para retaliação econômica — e, com isso, entramos num novo patamar: o da interferência explícita na soberania nacional.
Mas o buraco é mais embaixo. Porque o centro da tensão não é o comércio de aço ou proteína. O alvo, dito mas não em voz alta, são as terras raras brasileiras. Enterradas principalmente no centro-oeste e no norte do país, essas reservas guardam minerais essenciais para baterias, armas de precisão, satélites e chips — ou seja, o coração das guerras do futuro. E num mundo em que os Estados Unidos querem reduzir sua dependência da China, o Brasil virou, de repente, um ativo geoestratégico. Ou um obstáculo.
É nesse contexto que se inscreve a resposta do governo. Não como birra, mas como alerta. Lula sabe que, se aceitar passivamente o tarifaço, o país envia um recado perigoso: que está pronto para entregar o que tem de mais valioso sem sequer discutir os termos. E talvez por isso tenha preferido o embate. Não se trata apenas de defender exportações, mas de sinalizar que a soberania nacional tem preço — e que não será tabelada em Washington.
Mas há outro cálculo em jogo — e este é eleitoral. O Planalto entendeu que, ao polarizar com Trump, Lula se reposiciona. Sai da defensiva, deixa o desgaste com o Congresso em segundo plano e volta a falar direto com sua base. E as últimas pesquisas confirmam isso: houve recuperação nas taxas de aprovação, especialmente entre os mais pobres e nas periferias urbanas. Em tempos de esvaziamento simbólico, vestir a faixa de defensor do Brasil contra um imperialismo caricato parece ter caído bem.
A aposta, claro, tem custos. O mercado estremeceu, parte da imprensa chiou, analistas preveem desemprego e queda no PIB. Mas, politicamente, o embate pode ter devolvido ao governo algo que parecia perdido: narrativa, foco e povo assistindo. E não é pouca coisa, a esta altura do campeonato.
A crítica de Maia continua válida: coragem sem estratégia vira só teatro. Mas fingir que se pode contornar um ataque com gentilezas é repetir o velho erro brasileiro de confundir diplomacia com submissão. Há um mundo novo em disputa, e o Brasil, queira ou não, está no meio. Ou joga — ou será jogado.
Até a próxima — com ou sem retaliação, mas de preferência com mais respeito à nossa tabela periódica.
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