Entre Indiciamentos, Trump e Pesquisas: o tabuleiro se move
- Filinto Branco
- há 6 dias
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Por Filinto Branco

A cena política brasileira ganhou contornos de thriller nesta semana. A Polícia Federal apertou o cerco e não poupou nomes de peso: Jair Bolsonaro e seu filho foram formalmente indiciados por obstrução de justiça em investigações que apuram a tentativa de golpe e a articulação de ataques às instituições. O pastor Silas Malafaia, por sua vez, foi alvo de mandado de busca e apreensão, sinal claro de que a investigação se aproxima também dos principais aliados do bolsonarismo. A blindagem que parecia inexpugnável começa a ruir — e isso tem efeitos diretos no jogo político.
A ofensiva da PF veio acompanhada de outro dado relevante: a nova pesquisa Quaest trouxe números inéditos desde o início do terceiro ano de governo. Lula não só melhorou sua avaliação como venceria todos os adversários em um eventual segundo turno. Bolsonaro aparece desgastado, Tarcísio ainda não decola como alternativa viável, e Michelle Bolsonaro segue como aposta frágil, mais lembrada pelo sobrenome do que por credenciais próprias. Pela primeira vez em meses, o Planalto respira um ar mais leve: a imagem de um governo encurralado pelo Congresso e enfraquecido pela direita radical dá lugar a uma narrativa de resiliência — a de um Lula que, mesmo sob fogo cruzado, segue de pé e ganhando espaço.
E essa mudança de clima não se explica apenas pelos tropeços da oposição. Parte desse fôlego vem de fora: o confronto com Donald Trump. A escalada de tarifas e ameaças vindas de Washington, que poderia ter colocado o Brasil em posição defensiva, foi habilmente usada por Lula como palanque internacional. Ao se apresentar como defensor da soberania nacional diante de um presidente americano belicoso, Lula recuperou o figurino de estadista que lhe garantiu prestígio em outros tempos. O tarifaço, aliás, pode acabar trazendo dividendos inesperados: com menos exportações para os EUA, produtos como café e carne podem baixar de preço no mercado interno, o que daria ao governo um argumento econômico poderoso em um país historicamente pressionado pelo custo de vida. O embate externo, portanto, não é só palanque político — pode virar trunfo econômico.
No campo doméstico, o governo também conseguiu, aos poucos, se equilibrar. A inflação está sob controle, o dólar perdeu força e os indicadores de emprego mostram sinais de melhora. Nada que permita falar em bonança — longe disso —, mas o suficiente para mudar o tom da conversa. Se antes o Planalto parecia condenado a narrativas defensivas, hoje tem um discurso para apresentar: estabilidade econômica em um cenário global turbulento, postura firme diante de potências estrangeiras e adversários políticos cada vez mais ocupados em se explicar para a Justiça.
Isso não significa que Lula esteja livre de armadilhas. O Congresso segue sendo um campo minado, com um Centrão que cobra caro para cada passo dado. O Planalto ainda convive com um orçamento engessado e com disputas internas na base aliada. Mas a fotografia da semana sugere um reposicionamento. Lula, que parecia à beira do desgaste irreversível, agora surge como um líder capaz de reorganizar o tabuleiro — ainda que com cautela e sob o olhar atento de uma oposição que, embora enfraquecida, mantém grande poder de mobilização nas redes e nas ruas.
Na política, clima é tudo. E o clima, neste momento, sopra a favor do presidente. Adversários encurralados, economia menos hostil e um embate com Trump que reforça a imagem de liderança. Não é a virada definitiva — política não se ganha por nocaute, mas por pontos acumulados ao longo do tempo. E, nesta rodada, Lula marcou alguns pontos importantes. Se o café e a carne realmente ficarem mais baratos, talvez até o tarifaço de Trump ganhe fãs por aqui.
Bom domingo.
*Filinto Branco – colunista político
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