top of page

A derrota de Lula pode ser boa para os setores democráticos? E para o Brasil?

há 5 horas
4 min de leitura

Vou começar esta crônica com uma provocação que pode incomodar muita gente: e se a derrota de Lula puder fazer bem aos setores democráticos e, quem sabe, até ao Brasil? Calma. Não estou dizendo que uma eventual derrota de Lula seria necessariamente boa para o Brasil. Estou levantando uma hipótese. Afinal, algumas perguntas são interessantes justamente porque nos obrigam a pensar além da torcida eleitoral.


A eleição está aí, a disputa está apertada, mas não quero discutir agora quem vai ganhar. Quero discutir o que acontece depois. Lula nasceu em 1945 e completará 81 anos em outubro. Se vencer esta eleição, terá pela frente um último mandato presidencial. E isso torna inevitável uma pergunta: quem vem depois de Lula? Lula é uma liderança de enorme dimensão política e sua força acaba ocupando praticamente todo o espaço. E isso produz uma situação curiosa: quem fala tanto em futuro parece ter enorme dificuldade para preparar o próprio futuro. Já foram citados possíveis nomes para uma sucessão, mas citar candidatos é uma coisa; construir uma liderança nacional é outra completamente diferente. Liderança política não se fabrica de uma hora para outra. Precisa de tempo, exposição, experiência, identidade própria e capacidade de conversar diretamente com a sociedade.


É justamente aí que uma derrota eleitoral poderia produzir um efeito inesperado: obrigaria a acelerar a renovação. Uma derrota seria dolorosa, evidentemente, mas poderia acabar com uma situação confortável: a de continuar adiando a discussão sobre o pós-Lula. Se vencer, haverá mais quatro anos para preparar uma nova geração de lideranças. Mas existe o risco de que a força política de Lula continue ocupando tanto espaço que os possíveis sucessores permaneçam na sombra. E não se trata de diminuir sua importância histórica. É exatamente o contrário: reconhecer que nenhum líder é eterno e que uma força política precisa preparar sua sucessão antes que ela se transforme em emergência. Talvez seja necessário aprender a caminhar sem Lula antes que sejamos obrigados a fazê-lo.


Mas existe uma segunda questão, talvez ainda mais importante: o Brasil que o próximo presidente vai encontrar. Quem vencer a eleição não receberá o país embrulhado para presente, com uma fita vermelha e um cartão dizendo "boa sorte". Vai encontrar contas públicas pressionadas, enormes demandas sociais, uma sociedade polarizada e um Congresso com poder cada vez maior sobre o orçamento. E aqui entram as emendas parlamentares impositivas. Eu sou contrário a elas. Não porque deputados e senadores não devam indicar recursos para seus estados e municípios, mas porque considero um problema transformar essas indicações em despesas de execução obrigatória. O projeto do Orçamento de 2027 prevê cerca de R$ 44,4 bilhões em emendas individuais e de bancada com execução obrigatória. Somadas às emendas de comissão, o valor chega a aproximadamente R$ 57 bilhões, e estudo conjunto das consultorias da Câmara e do Senado estima que as emendas corresponderão à maioria das despesas discricionárias em 2027. Em bom português: o presidente pode ganhar a eleição, ocupar o Palácio do Planalto e descobrir que uma parcela importante do dinheiro público já tem destino definido pelo Congresso.


E isso, para mim, é um grave problema de governabilidade. O eleitor escolhe o presidente para governar, mas o presidente precisa ter condições reais de definir suas prioridades. Quanto maior a parcela do orçamento previamente comprometida, menor o espaço para executar um projeto de governo. E o próximo presidente vai precisar desse espaço. Terá de lidar com as contas públicas, buscar crescimento econômico, melhorar os serviços públicos, enfrentar a violência, investir em infraestrutura, responder às demandas da população e, ao mesmo tempo, negociar permanentemente com um Congresso cada vez mais poderoso. Ou seja: ganhar a eleição será apenas a primeira parte da história. Governar será a segunda — e provavelmente a mais difícil.


Durante a campanha, todo candidato parece ter solução para tudo. Depois da posse, descobre que existe uma coisa chamada realidade. E a realidade brasileira de 2027 promete ser pouco colaborativa. Por isso, talvez a eleição esteja sendo discutida de maneira excessivamente simplificada: Lula contra Flávio Bolsonaro, um lado contra o outro, nós contra eles. Mas existe uma questão muito maior por trás disso tudo: que Brasil o próximo presidente vai receber e o que será capaz de fazer com ele?


Se Lula perder, será preciso enfrentar imediatamente o problema da sucessão. Se ganhar, haverá mais quatro anos para tentar prepará-la. Mas poderá também ser adiada novamente uma renovação que, pela idade de Lula e pela própria lógica da alternância democrática, já deveria estar no centro da discussão. E talvez esteja aí o paradoxo que motivou esta crônica: uma vitória de Lula pode manter esse campo político forte no curto prazo, mas uma derrota poderia obrigá-lo a pensar seriamente no longo prazo.


Não sei se isso seria bom para os setores democráticos. Não sei se seria bom para o Brasil. Mas acho que é uma pergunta que precisamos fazer. Porque Lula não será presidente para sempre. E a democracia brasileira não pode depender eternamente de uma única liderança para definir seus rumos. Do outro lado, quem quer que vença também terá de descobrir que ganhar uma eleição é muito mais fácil do que governar o Brasil.


A eleição termina em outubro. O problema começa no dia seguinte.

Comentários


Cópia de CAPITAL POLÍTICO (300 x 250 px).png
Ativo 4_2x.png

© 2023 | TODOS OS CONTEÚDOS DO RADAR TEMPO DE NOTÍCIA PODEM SER

REPRODUZIDOS DESDE QUE NÃO SEJAM ALTERADOS E QUE SE DÊEM OS DEVIDOS CRÉDITOS.

  • https://api.whatsapp.com/send?phone=552198035-5703
  • YouTube
  • Instagram
  • Facebook
bottom of page