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Eleitores de Lula sofrem ameaças, agressões e discriminação após eleição

há 11 minutos
4 min de leitura

Casos atingem estudantes, trabalhadores e comunidades indígenas; Ministério do Trabalho recebeu 4,3 mil denúncias de assédio eleitoral em três dias

Eleitores aguardam atendimento em local de votação. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Eleitores aguardam atendimento em local de votação. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno da eleição presidencial, foi seguida por uma série de denúncias de violência, ameaças e discriminação contra eleitores do presidente reeleito. Os episódios se espalham por diferentes regiões do país e envolvem desde crianças e estudantes até trabalhadores e comunidades indígenas.


Reportagens publicadas nos últimos dias revelam situações de intimidação motivadas por preferências políticas, com relatos de agressões físicas, ameaças de morte, humilhações públicas e tentativas de retaliação econômica.


O problema também chegou às autoridades. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), aproximadamente 4,3 mil denúncias de assédio eleitoral foram registradas entre 28 e 30 de outubro, nos três primeiros dias de funcionamento de um canal específico para receber essas ocorrências.


Estudantes são ameaçados e agredidos


Um dos episódios mais graves foi registrado no Distrito Federal. Um estudante de 17 anos recebeu ameaças de morte em um grupo de WhatsApp de colegas de escola durante a apuração dos votos presidenciais.


De acordo com a Agência Brasil, que teve acesso aos áudios, o adolescente foi insultado por seu posicionamento favorável a Lula. O autor das mensagens também ameaçou agredir outros cinco estudantes caso Flávio Bolsonaro fosse derrotado.


Em Itajaí, Santa Catarina, imagens divulgadas nas redes sociais mostram estudantes usando a bandeira brasileira enquanto agridem colegas vestidos de vermelho. Segundo relatos associados ao vídeo, os adolescentes também fizeram comentários ofensivos relacionados ao Bolsa Família.


A violência política chegou ainda ao ensino superior. Em Araguari, Minas Gerais, alunos de medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac) foram denunciados por ofender colegas bolsistas que votaram em Lula e estudantes que vendiam produtos para complementar a renda.


A instituição divulgou uma nota repudiando manifestações de intolerância política e discriminação socioeconômica.


Episódios de perseguição e intimidação entre estudantes aconteceram em diferentes cidades. Entre os relatos estão insultos dirigidos a filhos de eleitores de Lula e ameaças dentro do ambiente escolar.


Criança de 9 anos é humilhada por voto da família


Em Fortaleza, no Ceará, um episódio envolvendo uma criança provocou indignação nas redes sociais.


Matheus, de apenas 9 anos, vendia balas para ajudar no sustento da família quando foi abordado pela influenciadora Valéria Diniz, que havia declarado apoio a Flávio Bolsonaro.


Durante a abordagem, registrada em vídeo, a influenciadora perguntou em quem a família do menino havia votado. Ao ouvir que a resposta era Lula, pediu que ele fizesse o gesto do L. Em seguida, ela e amigas riram da criança e se recusaram a comprar os produtos.


O menino é criado pela avó, após a morte da mãe. Depois da repercussão, grupos de motociclistas e usuários das redes sociais organizaram iniciativas para ajudar a família.


Indígenas denunciam ataques e ameaças de morte


No Mato Grosso do Sul, comunidades Guarani Kaiowá denunciaram uma sequência de episódios de violência após o resultado eleitoral.


Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), mais de 30 ocorrências relacionadas ao processo eleitoral foram relatadas no estado, incluindo ameaças, agressões e ataques a comunidades.


Um dos casos envolve mensagens de áudio em que um homem sugere envenenar a água utilizada por indígenas, responsabilizando essas populações pela vitória de Lula.


Também foi denunciado o incêndio da residência de uma liderança religiosa indígena de 90 anos, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru. O episódio ocorreu em 29 de outubro e atingiu objetos sagrados utilizados em rituais tradicionais.


A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionou a Polícia Federal para apurar os ataques. As denúncias também foram encaminhadas a outros órgãos responsáveis pela proteção dos direitos indígenas.


As autoridades investigam as circunstâncias dos episódios e sua possível relação com o resultado das eleições.


Trabalhadores enfrentam ameaças de demissão


A intolerância política também se manifesta nas relações de trabalho.


Após a eleição, passaram a circular nas redes sociais vídeos, mensagens e publicações incentivando empresários a demitir funcionários que votaram em Lula. Também surgiram denúncias de listas destinadas a promover boicotes contra comerciantes e profissionais identificados com o presidente.


O volume de denúncias levou o Ministério do Trabalho e Emprego a criar um canal específico para o recebimento de relatos de assédio eleitoral.


Em apenas três dias, o serviço recebeu aproximadamente 4,3 mil denúncias. São Paulo liderou os registros, com 1.325 ocorrências, seguido pelo Rio de Janeiro, com 354, e Minas Gerais, com 345. A Região Sudeste concentrou 48,5% das denúncias.


A legislação brasileira protege a liberdade de escolha política. Ameaçar, constranger ou retaliar trabalhadores em razão de sua preferência eleitoral pode gerar responsabilização trabalhista e, conforme as circunstâncias, outras consequências legais.


Governo anuncia investigação de casos de violência política


Diante da sucessão de denúncias, o governo federal anunciou o reforço das investigações sobre 45 episódios de possível violência política registrados no fim de semana do segundo turno.


Entre as ocorrências contabilizadas estavam dez homicídios cuja possível motivação eleitoral passou a ser examinada pelas autoridades. A inclusão dos casos nesse levantamento não significa que todos já tenham sido comprovados como crimes políticos.


A dimensão dos relatos evidencia a necessidade de investigar as denúncias, proteger as vítimas e responsabilizar os autores sempre que houver comprovação dos crimes.


A liberdade de voto é um direito assegurado pela Constituição. Divergências políticas fazem parte da democracia, mas ameaças, agressões e discriminação não podem ser utilizadas para punir cidadãos por suas escolhas nas urnas.

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