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Retrospectiva 2025 - O Ano em que o Brasil Tropeçou, Resistiu e Insistiu


Eu ia, mais uma vez, escrever sobre o fim do trabalho. Juro que ia. Já estava em frente ao computador, preparado para discutir os algoritmos que escrevem relatórios, as máquinas que colhem soja e os robôs que finalmente aprenderam a fazer aquilo que parte do Congresso ainda não sabe: pensar.


Mas lembrei-me de que, por tradição, no final de cada ano, eu e a Rede Globo (modéstia à parte ao me comparar com ela) fazemos a nossa retrospectiva do ano que se vai.

Por isso, deixo para mais tarde a crônica futurista. O presente, esse cão nervoso que não para de morder nossos calcanhares, exige atenção imediata. Afinal, esse é  o retrato de 2025, um país a correr atrás do próprio rabo, a tropeçar nos cordões que ele mesmo amarrou e, ainda assim, teimoso o suficiente para continuar a avançar mesmo quando o chão se inclina na direção contrária.


O Brasil foi um espetáculo de instabilidade. O Executivo passou grande parte do ano a comportar-se como quem tenta empurrar um carro ladeira acima, muito esforço e pouco avanço. Enquanto isso, o Congresso, cada vez mais corporativista e autocentrado, descobriu que podia governar sem ter sido eleito para isso. Derrubou vetos, alterou leis, redesenhou orçamentos e enviou recados diários ao Planalto, sempre com a mesma entoação: ou cedem ou avançamos. E o Executivo, quase sempre, cedia, não por convicção, mas por ausência de alternativas.


A certa altura do ano, o Congresso quis ir além de derrubar vetos e distribuir emendas impositivas. Resolveu também reescrever a memória nacional. A aprovação da nova dosimetria para os crimes de 8 de Janeiro surgiu embrulhada em discursos sobre justiça, equilíbrio e pacificação, mas o país inteiro percebeu o movimento pelo que era: uma anistia envergonhada, fragmentada, retórica, mas, ainda , anistia. Rebaixaram-se penas, relativizaram-se responsabilidades e abriu-se, nas entrelinhas, a porta para a reabilitação política de quem tentou incendiar a própria República. Não foi apenas um retrocesso jurídico. Foi um recado. O Congresso mostrou que é capaz de refazer a história ao sabor do momento.


A nova lei ambiental transformou-se numa ficção científica de última categoria. A renegociação das dívidas estaduais virou um mercado persa de interesses. E debates urgentes, como educação, clima, saúde e tecnologia, foram sendo empurrados para o fim de uma fila que nunca andava. Ainda assim, 2025 não foi apenas o ano da paralisia. Houve luzes. A sociedade reagiu mais depressa, o debate público amadureceu e as novas gerações, estudantes, pesquisadores e jovens parlamentares, ocuparam espaços que antes pertenciam exclusivamente a caciques com ideias de 1964. A democracia brasileira, calejada mas resiliente, continuou a mover-se no meio do caos.


É nesse ambiente que 2025 entra definitivamente para a história com um acontecimento que, até pouco tempo antes, parecia improvável demais para ser pronunciado em voz alta: a prisão de Jair Bolsonaro. Não foi um episódio cinematográfico, nem um clímax revolucionário. Foi burocrático, jurídico, quase prosaico e chocho. E talvez aí resida o seu maior significado. Pela primeira vez desde a redemocratização, um ex-presidente foi privado da liberdade por actos cometidos contra a própria ordem democrática. Não se tratou de vingança política, como insistiram os seus apoiantes, mas de justiça ainda que tardia. O país não celebrou, mas também não se comoveu. Assistiu em silêncio, como quem compreende que a democracia, quando funciona, não precisa de fogos de artifício.


No Judiciário, o inevitável voltou a acontecer. O STF assumiu funções que não lhe cabiam, não por arrogância, mas por abandono dos outros dois poderes. Decidiu sobre orçamento, clima, relações federativas, impostos e até disputas internas do Congresso. Tornou-se o árbitro de um jogo em que os jogadores ou chutavam a bola para longe ou pediam ao juiz que resolvesse o resultado. O equilíbrio entre os poderes converteu-se numa relíquia constitucional.


No cenário externo, 2025 também não foi gentil. O regresso de Donald Trump à Casa Branca trouxe um protecionismo barulhento e uma mensagem clara, países sem projeto tornam-se países vulneráveis. O tarifaço americano atingiu o aço, o etanol, o sumo de laranja e tudo aquilo que coubesse na pedagogia de choque trumpista. A disputa por terras raras deixou evidente que a economia mundial já não gira em torno do petróleo, mas de minerais estratégicos. Quem não se posiciona acaba posicionado.


Mesmo assim, não foi um ano perdido para a política externa brasileira. O país recuperou algum protagonismo no debate climático, voltou a ser ouvido no Mercosul em meio à instabilidade argentina, aproximou-se da União Europeia em temas como energia limpa e biodiversidade e manteve um prestígio diplomático que insiste em sobreviver ao pandemônio interno. Porém, o velho acordo entre União Europeia e Mercosul voltou a ser adiado, empurrado mais uma vez para um futuro indefinido, como se fosse um desses compromissos internacionais que todos defendem em discursos solenes, mas ninguém tem coragem política suficiente para assinar de fato. O Brasil falou, foi ouvido, negociou — mas, como tantas outras vezes, voltou da mesa sem o contrato na mão. 


Dois mil e vinte e cinco fez o que a economia brasileira mais aprecia, contrariar expectativas. A inflação ficou sob controle, mas os juros permaneceram no seu habitat natural, as alturas. A troca no comando do Banco Central animou expectativas, mas não alterou o desfecho. Galípolo organizou a mesa, alinhou os papéis e manteve exatamente tudo como estava. O Brasil preservou com zelo o único campeonato mundial que vence todos os anos: o de estar entre os países com os juros reais mais altos do planeta. Mesmo assim, o consumo deu sinais de vida, os serviços recuperaram força, a tecnologia abriu oportunidades, os investimentos ambientais avançaram e o agro continuou potente e ruidoso, e bota ruidoso nisso.


E então chegou ela, a cultura. A eterna salvadora da pátria, mesmo quando a pátria parece empenhada em não ser salva.

2025 levou embora nomes que moldaram a alma brasileira. Nana Caymmi silenciou uma voz que parecia sempre nascer depois da tempestade. Preta Gil deixou como legado uma coragem pública rara e necessária.


Arlindo Cruz, arquiteto do samba e cronista do subúrbio, partiu deixando órfã uma forma inteira de narrar o cotidiano. Cacá Diegues, um dos grandes olhares do nosso cinema, despediu-se das câmeras. Até Ozzy Osbourne, que não era nosso, mas era de todos, encerrou uma era. E o papa Francisco fechou os olhos que, por um breve instante histórico, fizeram a Igreja parecer menos distante da compaixão que pregava.


A música brasileira também encontrou novos protagonistas. Liniker, embora fora do meu campo emocional, mais habituado à MPB e às melancolias do fado, tornou-se um dos nomes centrais do ano, enquanto nomes históricos como Chico, Caetano e Gilberto Gil continuaram a lembrar que a canção brasileira tem passado presente e futuro. A vitalidade cultural do país não depende do gosto de quem escreve, mas da sua capacidade infinita de se renovar. Entre palcos, plataformas e festivais, novas gerações ocuparam espaço com naturalidade, confirmando que, mesmo em tempos de desordem política e cansaço institucional, a canção brasileira segue viva, plural e em movimento.


E o cinema brasileiro, tantas vezes subfinanciado e tantas vezes subestimado, viveu em 2025 um raro momento de redenção.


Obras nacionais circularam e foram premiadas em festivais internacionais relevantes, algumas recebidas com aplausos prolongados, outras analisadas como sinais claros de renovação estética e narrativa. Num ano em que perdemos Cacá Diegues, o cinema que ele ajudou a construir respondeu à altura, devolvendo ao mundo a ousadia, a inquietação e a capacidade de se pensar como país através da imagem.


A literatura também voltou a pulsar. O surgimento de João Carino, com o romance Zezinho de Nervina, confirmou que novas vozes seguem dispostas a narrar o Brasil sem concessões fáceis. O teatro reencontrou o público, com salas cheias e atuações memoráveis, como o monólogo de Othon Bastos, que provou que a palavra dita ainda é uma das formas mais potentes de resistência.


Ao mesmo tempo, criadores independentes ocuparam a internet com humor, crítica e inteligência, transformando redes sociais em trincheiras culturais improvisadas. A cultura brasileira, mais uma vez, fez aquilo que nenhuma instituição do Estado conseguiu fazer: manteve-nos de pé.


2025 termina com uma sensação paradoxal. Fomos piores do que poderíamos, mas melhores do que merecíamos. Um ano duro, mas não estéril. Um ano de tropeços evidentes, mas também de reinvenções discretas. Um ano que deixou cicatrizes, mas também sinais de vida. O Brasil continua a ser esse país que insiste — insiste em existir, em criar, em discutir, em resistir e em produzir beleza mesmo quando o desastre parece inevitável.


É pouco? Não é pouco. Em certos momentos da história, sobreviver já é começar a vencer.

Que 2026 chegue com mais clareza, mais coragem e menos improviso.


E que o Brasil encontre, enfim, o seu próprio ritmo, antes que o mundo decida marca-lo por nós. 

1 comentário


Maurício
31 de dez. de 2025

Grato a Deus por ter sobrevivido o ano conturbado de 2025. E espero o milagre de que 2026 seja mais próspero na nossa luta pela sobrevivência.


O risco dos problemas elétricos


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