Café, até descafeinado, pode influenciar intestino, humor, memória e sono, aponta estudo
- falertn
- há 22 horas
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Pesquisa indica que compostos presentes na bebida podem alterar o microbioma intestinal e produzir efeitos relacionados ao eixo intestino-cérebro

O café pode ter efeitos no organismo que vão além da disposição e da atenção provocadas pela cafeína. Um estudo publicado na revista Nature Communications sugere que a bebida pode modificar o microbioma intestinal e estar associada a alterações no humor, na memória, no sono e na cognição. Os resultados também foram observados entre participantes que consumiram café descafeinado.
A pesquisa avaliou 62 adultos saudáveis. Metade consumia habitualmente entre três e cinco xícaras de café por dia, enquanto a outra metade não tinha o costume de tomar a bebida.
Os pesquisadores analisaram indicadores como humor, função cognitiva, estresse, saúde física e composição da microbiota intestinal, além de metabólitos encontrados em amostras de fezes e urina.
Café com e sem cafeína
Após a primeira etapa da pesquisa, os consumidores habituais ficaram duas semanas sem café e outras fontes de cafeína. Depois, durante três semanas, parte voltou a tomar café com cafeína e os demais passaram a consumir a versão descafeinada.
Os dois tipos de café foram associados a melhora do humor, redução do estresse e diminuição da impulsividade depois do período de abstinência. Algumas diferenças, porém, apareceram entre os grupos. O café com cafeína apresentou efeitos relacionados à atenção e à ansiedade. Já o descafeinado esteve mais associado a alterações positivas na memória, no sono e na atividade física.
Para o nutrólogo Diogo Toledo, do Einstein Hospital Israelita, os resultados ajudam a mostrar que os possíveis efeitos da bebida não podem ser atribuídos exclusivamente à cafeína.
“Esse estudo reforça uma ideia que vem ganhando força: intestino e cérebro estão diretamente conectados. O que chama atenção é que o trabalho mostrou isso até com o café descafeinado, ou seja, não é só a cafeína que parece influenciar o organismo.”
Segundo Toledo, o café contém centenas de compostos bioativos, entre eles polifenóis e antioxidantes.
O que o intestino tem a ver com o cérebro?
O chamado eixo intestino-cérebro é uma rede de comunicação entre o sistema digestivo e o sistema nervoso. O intestino participa de processos relacionados a neurotransmissores e substâncias inflamatórias capazes de interferir em funções como humor, memória, sono e cognição.
“Essa ‘conversa’ acontece pelo sistema nervoso, pelo sistema imunológico e também pelas bactérias intestinais”, explica Toledo.
A pesquisa encontrou ainda diferenças na microbiota dos consumidores de café, que apresentaram níveis maiores de determinadas bactérias associadas a efeitos positivos para a saúde.
Durante o período em que os participantes deixaram de consumir a bebida, também foram observadas alterações em metabólitos relacionados ao funcionamento cerebral e ao metabolismo.
“Há cada vez mais evidências mostrando que o microbioma intestinal é extremamente dinâmico e responde rapidamente ao que a pessoa come e bebe”, afirma o nutrólogo.
Cafeína pode deixar algumas pessoas mais aceleradas
O estudo também encontrou inicialmente maior impulsividade e reatividade emocional entre consumidores de café. Uma possível explicação está na ação estimulante da cafeína sobre o sistema nervoso central.
A substância interfere em neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, relacionados, entre outras funções, à atenção e à disposição.
“Ela aumenta neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, o que melhora atenção e disposição, mas também pode deixar algumas pessoas mais aceleradas emocionalmente”, afirma Toledo.
Estudo tem limitações
Os resultados não significam que tomar café seja uma forma comprovada de melhorar memória, sono ou saúde mental. Os próprios pesquisadores apontam limitações importantes.
A amostra foi pequena, com apenas 62 adultos, e o experimento utilizou café instantâneo. Diferentes formas de preparo podem resultar em concentrações distintas de cafeína, polifenóis e outros compostos.
“Café espresso, coado, em cápsula, prensa francesa ou instantâneo apresentam diferenças na quantidade de cafeína, polifenóis e outros compostos bioativos. Como o estudo utilizou apenas café instantâneo, não dá para afirmar que todos os tipos de preparo têm exatamente os mesmos efeitos sobre microbiota e saúde cerebral”, pondera Toledo.
Diretrizes internacionais adotam como referência para adultos saudáveis um limite de até 400 mg de cafeína por dia, quantidade que pode corresponder aproximadamente a três ou quatro xícaras, dependendo do tipo e do método de preparo.
A tolerância, entretanto, varia de pessoa para pessoa. Genética, metabolismo e sensibilidade individual à cafeína ajudam a determinar quanto café cada organismo tolera sem efeitos indesejados.
Fonte: Agência Einstein




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