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A polêmica do voto feminino


Com uma perplexidade abissal, custando a crer no que os olhos veem e os ouvidos ouvem, tenho assistido a vídeos criticando o voto feminino. Isso mesmo: pondo em xeque o direito de voto das mulheres.


Um certo neto de ditador, cúmplice do Zero Três, radicado nos Estados Unidos, estaria à frente dessa campanha que nasce entre trumpistas e certa ala bolsonarista importa para o Brasil.


Aqui, a balela de que “mulher não sabe votar”, ecoa – pasmem – até entre mulheres, como a influencer Pietra Bertolazzi, seguida por mais de um milhão de pessoas: talvez ela não saiba, ou finge não saber, que chegou onde chegou graças à luta das mulheres feministas. Para ser coerente, devia encostar o umbigo num tanque de roupa (frase feita comum entre misóginos) ou estudar e se desculpar por tantas sandices.


Outras vozes da direita, como o sempre surpreendente governador Zema, decidiram fazer coro com essa campanha antifeminista e misógina. Durante evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em junho, em Brasília, declarou que, se eleito, para ter acesso ao Bolsa Família, vai cobrar mais estudo dos requerentes. Mas apenas dos homens, “porque as mulheres têm outras atribuições”. Com isso, reforça a ideia de que cuidar da casa e dos filhos é uma obrigação apenas das mulheres.


Essa visão ultrapassada reforça a ideia da superioridade masculina, da mulher objetificada e inferior, dependente e incapaz. Talvez explique os assustadores e crescentes índices de feminicídio, fenômeno que tem sido denunciado e combatido com energia pelo governo Lula, instituindo novas medidas protetivas para as mulheres e penalidades maiores para seus assassinos e agressores.


Não custa lembrar: mulher não é objeto nem propriedade do homem.


Primeiras eleitoras votam no Brasil. Foto: Acervo TSE
Primeiras eleitoras votam no Brasil. Foto: Acervo TSE

No Brasil, o direito ao voto só foi conquistado pelas mulheres em 1936, depois de muita luta. Só em 1962, com a aprovação do Estatuto da Mulher Casada, saiu da tutela do marido, alcançando o direito de herança, de trabalhar fora sem ter que pedir permissão para o marido, de requerer a tutela dos filhos em caso de separação.


Muito se conquistou desde que eram queimadas nas fogueiras, espancadas com a permissão da lei, vendidas ainda meninas como meras mercadorias. Porém ainda há muito a ser conquistado. O voto ajuda a superar as persistentes discriminações e desigualdades.


Hoje, mulheres formam a maioria do eleitorado no Brasil. De acordo com dados do IBGE de 2022, representavam 52,65 % dentre os que estavam em condição de voto. Pesquisas têm apontado que o eleitorado feminino prefere Lula aos bolsonaros, numa proporção que se amplia, à medida que se desmascara o machismo estrutural dessa extrema direita. Mesmo quando o candidato Flávio tenta se desprender da imagem antiquada, para minimizar os estragos.


Mulheres, para nós está lançado o desafio de comparecer em massa às urnas, nas eleições de 2026, para derrotar mais uma vez o atraso. Como se costuma dizer “quem anda para trás é carangueiro”.

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