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Fim da 6x1: o medo de sempre


Nesta segunda-feira, O Globo afirma que o fim da jornada 6x1 poderá elevar os gastos do setor público. Segundo economistas e gestores ouvidos pelo jornal, a proposta em discussão no Congresso Nacional poderia aumentar os custos dos serviços públicos em até R$ 34,5 bilhões, afetando áreas como saúde, transporte e limpeza urbana. Prefeitos também alertam para a possibilidade de repasse desses custos aos cidadãos e defendem um período de adaptação.


As previsões pessimistas costumam frequentar as páginas dos jornais toda vez que uma proposta que beneficie trabalhadores é apresentada no Parlamento. Foram os mesmos setores que, no passado, afirmavam que direitos como o 13º salário, as férias remuneradas, a licença-maternidade e o FGTS provocariam desemprego, perda de competitividade e até a ruína da economia brasileira.


A história mostra justamente o contrário. A jornada semanal de trabalho no Brasil foi reduzida de 48 para 44 horas com a Constituição de 1988. Naquele momento, representantes do empresariado também previram aumento expressivo dos custos, fechamento de postos de trabalho e queda na produtividade. O resultado foi diferente: a economia se adaptou por meio da reorganização produtiva, da incorporação de novas tecnologias e da melhoria dos processos de gestão.


Quando se trata de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, a reação de determinados setores é quase automática. No entanto, experiências nacionais e internacionais demonstram que a redução da jornada não deve ser analisada apenas pelo lado do custo imediato.


Diversos estudos apontam que jornadas menores tendem a aumentar a produtividade por hora trabalhada. Trabalhadores mais descansados cometem menos erros, sofrem menos acidentes, apresentam menor índice de afastamentos por doenças físicas e mentais e registram maior engajamento nas atividades profissionais. Em países desenvolvidos, como Alemanha, Holanda e Dinamarca, a carga horária média é inferior à brasileira, enquanto os níveis de produtividade estão entre os mais altos do mundo.


Outro aspecto frequentemente ignorado é o impacto positivo sobre o emprego. Se empresas e prestadores de serviços precisarem contratar mais trabalhadores para manter o funcionamento das atividades, haverá ampliação do emprego formal, aumento da arrecadação previdenciária e tributária e redução da pressão sobre programas de assistência social.


O debate também precisa considerar os custos ocultos da atual escala 6x1. Longas jornadas estão associadas ao aumento dos casos de estresse, ansiedade, burnout e doenças ocupacionais. Menos afastamentos significam menor pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre a Previdência Social, gerando economia para os cofres públicos no médio e longo prazo.


Além disso, mais tempo livre significa maior circulação de renda na economia. Trabalhadores com mais horas disponíveis para lazer, cultura, turismo e convivência familiar tendem a consumir mais bens e serviços, movimentando setores importantes da atividade econômica e ampliando a arrecadação de impostos.


Os próprios cálculos que projetam aumento de despesas de até R$ 34,5 bilhões concentram-se nos custos imediatos de adaptação. Em geral, deixam de contabilizar ganhos de produtividade, redução do absenteísmo, menor rotatividade de mão de obra, geração de empregos, crescimento do consumo e aumento da arrecadação tributária.


O debate sobre o fim da escala 6x1 não pode ser reduzido a uma simples conta de despesas. A questão central é definir qual modelo de desenvolvimento o país pretende adotar: um modelo baseado na extensão das jornadas de trabalho ou outro que combine eficiência econômica, inovação tecnológica, produtividade e melhores condições de vida para milhões de trabalhadores brasileiros.


A experiência histórica mostra que toda conquista trabalhista relevante foi recebida com previsões catastróficas. Nenhuma delas se confirmou na dimensão anunciada. O que ocorreu foi a adaptação da economia e da sociedade a novos padrões de direitos, produtividade e desenvolvimento.

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