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Um segundo antes de sermos quem somos

Em um domingo abafado em Niterói. Desses em que o ar parece pesado, quase imóvel, como se o tempo tivesse decidido caminhar mais devagar. A família viajando, a casa estava silenciosa demais — um silêncio que não incomoda, mas também não acolhe completamente. Resolvi sair sem destino certo, apenas dirigir.


Acabei parando na Praia de São Francisco. Estacionei o carro, desliguei o motor e, por alguns segundos, fiquei ali, imóvel, como se estivesse esperando alguma coisa acontecer.


Abri as janelas. O vento entrou devagar, carregando o cheiro do mar, um sopro salgado que parecia limpar o excesso do dia. Lá fora, a vida seguia simples — pessoas caminhando, o som distante de conversas, o ritmo constante das ondas.


E foi ali, naquele instante comum, que algo mudou por dentro.


Veio uma sensação de paz — não aquela eufórica, mas uma paz silenciosa, quase reflexiva. Como se o mundo, por um breve momento, tivesse abaixado o volume para que eu pudesse escutar outra coisa. E então, sem esforço, sem planejamento, surgiu a pergunta.


O que, afinal, nos move?


E foi dessa pergunta — nascida no calor de um domingo e levada pelo vento do mar — que veio a reflexão que você lê agora.


UM SEGUNDO ANTES DE SERMOS QUEM SOMOS

Por Zé Maia


Há um instante — quase invisível — entre o pensamento e a ação. Um segundo antes do gesto. É ali que mora o mistério.


Gostamos de acreditar que somos racionais. Que decidimos. Que escolhemos. Mas a verdade, como a vida insiste em mostrar, é mais desconfortável: somos feitos de camadas — biológicas, emocionais, culturais — que se acumulam ao longo do tempo e moldam silenciosamente cada atitude. Antes de um ato de bondade, há uma história. Antes de um ato de violência, também. E talvez o mais inquietante seja isso: a linha que separa um do outro é muito mais fina do que gostaríamos de admitir.


O ser humano não é coerente — ele é ambíguo. Podemos nos indignar com a violência e, no minuto seguinte, aplaudi-la travestida de espetáculo. Defendemos a paz, mas alimentamos pequenas guerras íntimas. Amamos com intensidade e, quando feridos, somos capazes de devolver o golpe com uma precisão que surpreende até a nós mesmos. Não é contradição. É natureza.


Não odiamos a violência em si. Odiamos a violência fora do lugar. Porque, quando ela aparece no contexto “certo”, muda de nome: vira coragem, vira defesa, vira justiça. E assim seguimos, reinterpretando nossos próprios impulsos para que caibam dentro de uma narrativa aceitável.


Temos também uma habilidade perigosa: simplificar o que não é simples. Dizemos que alguém é assim por causa da infância, ou da genética, ou do ambiente, ou das escolhas. Mas ninguém é apenas uma coisa. Somos o acúmulo de tudo: do que aconteceu há um segundo no cérebro, do que foi sentido minutos antes, do que foi vivido anos atrás e até do que foi herdado de um passado que sequer lembramos. Não existe uma causa isolada. Existe uma construção contínua.


Somos animais — e isso nos incomoda. Porque compartilhamos com eles o medo, o desejo, a agressividade, o instinto de proteção. Mas fazemos algo que nenhuma outra espécie faz com tanta sofisticação: damos sentido a tudo isso. Um animal reage. O ser humano interpreta. E, ao interpretar, transforma.


Somos capazes de odiar por ideias, amar por abstrações, sofrer por antecipação e nos emocionar com aquilo que nunca vivemos. E, ao mesmo tempo, somos capazes de gestos silenciosos de grandeza — aqueles que não aparecem, não são reconhecidos, mas sustentam o que ainda há de humano no mundo.


No fim, a pergunta não é por que fazemos o mal. Essa é a pergunta fácil. A pergunta difícil — e talvez a única que realmente importa — é por que, tendo todas as razões para cair, às vezes escolhemos não cair.


Porque existe algo em nós que resiste.


Algo que interrompe o impulso.


Algo que decide.


Não somos bons nem maus. Somos possibilidade. E talvez a maturidade não esteja em negar o que somos, mas em encarar isso sem ilusões: carregamos dentro de nós tanto o caos quanto a chance de contê-lo.


E tudo começa ali, naquele instante imperceptível — um segundo antes do gesto — onde, silenciosamente, decidimos quem vamos ser.


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