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Portugal, Chega (Mas Não Tanto)


Eu ia continuar a minha série sobre o fim do trabalho, esse tema futurista em que o capitalismo nos substitui por máquinas com mais entusiasmo do que qualquer departamento de recursos humanos. Mas a vida tem um vício antigo: interromper a filosofia com a conjuntura. E desta vez quem me puxou pela manga foi Portugal.


Portugal acabou de passar por eleições e o PS venceu, e venceu por larga margem. António Seguro ficou com cerca de dois terços dos votos; Ventura, com perto de um terço. Arredondando, dois terços para a estabilidade e um terço para o sobressalto. Um resultado suficientemente expressivo para lembrar que Portugal ainda tem bom senso e suficientemente inquietante para lembrar que o bom senso já não é unanimidade.


Houve ainda um detalhe pitoresco, quase antropológico: Ventura venceu entre os eleitores portugueses residentes no Brasil. Sim, no Brasil. O que confirma uma tese antiga: há gente que muda de país, mas leva o radicalismo na mala. Registe-se, porém, para fins históricos e morais, que não foi com o meu voto.


E talvez por isso eu tenha sentido a necessidade de escrever sobre o tema. Sim, Portugal, esse país pequeno no mapa, mas gigantesco no coração de quem nasceu lá. Esse lugar onde as coisas parecem sempre civilizadas, mesmo quando estão prestes a desandar.


Digo isto com a estranha emoção de quem nasceu lá e vive cá. Porque viver no Brasil faz-nos valorizar coisas que antes pareciam banais. Como um governo cair por voto, e não por impeachment. Como o Parlamento delibera o orçamento sem a indústria das emendas impositivas. Como uma crise terminar em eleições, e não em ameaças.


Morar no Brasil muda o cérebro de qualquer europeu. Aqui, a política tem uma intensidade própria: mais emocional, mais ruidosa, mais teatral. Os poderes discutem em público com uma franqueza que, para um português, chega a ser quase exótica. O Executivo queixa-se de que não manda, o Congresso manda sem assumir e o Judiciário acaba por funcionar como gerente-geral do país. É um sistema que, apesar de tudo, continua de pé por teimosia institucional: ninguém tem plena certeza de quem segura o volante, mas todos discutem a rota como se fossem co-pilotos.


Portugal é o oposto. Portugal discute baixo. Portugal conspira com educação. Portugal derruba governos com votos e depois pede desculpa pelo incómodo. E talvez por isso esta vitória tenha um significado maior do que o placar. Ela diz que, mesmo num mundo em que a democracia está a ser corroída por ressentimentos e por discursos fáceis, Portugal ainda sabe distinguir protesto de suicídio institucional.


Quando um partido vence com folga, o que está em jogo não é apenas o programa. É o desejo de normalidade. E normalidade, hoje, virou artigo de luxo. A Europa vive um tempo de ansiedade: guerra no continente, crise energética, migração, inflação, envelhecimento demográfico, precarização do trabalho, radicalização política. E Portugal, país de prudência, decidiu não brincar com o fogo.


Portugal já não é aquele país previsível do bipartidarismo confortável. O sistema fragmentou-se, a política ficou mais nervosa, a direita radical ganhou espaço. O ressentimento, esse vírus global, também chegou. E o ressentimento nunca chega de boina nem de bigode: chega com discurso de “ordem”, “limpeza”, “corrupção” e “os políticos são todos iguais”. O Brasil conhece isso de cor. Portugal começa a reconhecer a melodia. A diferença é que, desta vez, a maioria escolheu o antídoto.


A minha vantagem, vivendo no Brasil, é que eu já vi este filme. Vi a democracia ser tratada como estorvo. Vi o Parlamento virar balcão. Vi o Executivo perder autoridade. Vi o Judiciário virar protagonista. Vi o país ser empurrado para uma polarização doentia. E vi, sobretudo, como é rápido o processo. Um país não acorda autoritário: vai ficando. Vai tolerando. Vai relativizando. Vai aceitando. Vai deixando passar. Até ao dia em que percebe que o “deixar passar” passou.


Portugal tem instituições mais sólidas? Sim. Tem uma cultura política menos histérica? Sim. Tem uma sociedade menos violenta? Graças a Deus. Mas tem também o mesmo desgaste do Ocidente inteiro: crise de confiança, cansaço com a política e tentação por soluções fáceis. Por isso, uma vitória larga do PS não é apenas uma vitória. É uma contenção.


E há um detalhe que muita gente fora de Portugal não entende: o presidente português não governa, mas decide se ainda haverá governo. Ele não manda, mas pode dissolver o Parlamento. Não executa, mas interfere. É uma figura que parece simbólica, até ao dia em que deixa de ser. Num cenário em que o PS sai reforçado, o presidente tende a ser menos interventivo. Mas não menos importante. Porque o mundo não está calmo. E Portugal, como se viu nas últimas semanas, sabe bem o que é tempestade.


Confesso: eu respirei. Respirei não como militante, mas como alguém que conhece a fragilidade das democracias contemporâneas. Respirei porque sei que, quando o centro se desmancha, o vazio é ocupado por extremos. E os extremos, em geral, não têm projecto: têm ressentimento.


Portugal, desta vez, escolheu o contrário: escolheu o previsível. E o previsível, hoje, é revolucionário. Escolheu o caminho menos excitante e mais necessário: o da estabilidade. O Brasil, quando está insatisfeito, tenta incendiar a casa. Portugal, quando está insatisfeito, troca a mobília. O brasileiro, diante da crise, quer um salvador. O português, diante da crise, quer alguém que não atrapalhe. E isso, com o perdão da franqueza, é uma forma de maturidade.


Portugal não precisa de heróis. Precisa de instituições, método e continuidade. Porque o mundo está a ficar perigoso demais para democracias que brincam à roleta russa. E se há algo que o Brasil me ensinou, é que a democracia não morre com estrondo. Morre por fadiga. Morre por repetição. Morre por normalização do absurdo.


Portugal, por enquanto, escolheu não banalizar o extremismo. E, no mundo em que vivemos, isso já é um feito considerável. Porque, num tempo em que a democracia virou um reality show global, resistir com compostura é quase um gesto subversivo. O país não resolveu todos os seus problemas. Mas fez uma escolha rara: preferiu a estabilidade ao delírio. E, convenhamos, no século XXI, isso já é uma pequena vitória civilizacional.


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