Lula defende soberania e reforma da ONU em discurso na Assembleia Geral
Presidente brasileiro criticou interferências externas, cobrou mudanças no Conselho de Segurança e abordou guerras, clima, desigualdade, crime organizado e regulação das big techs

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso centrado na defesa da soberania dos países, na reforma do sistema multilateral e na busca de soluções diplomáticas para os conflitos internacionais.
Em um dos trechos de maior repercussão, Lula criticou interferências externas na América Latina e afirmou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Sem citar diretamente os Estados Unidos nesse momento, o presidente disse que os países da região precisam de parceiros voltados ao desenvolvimento e rejeitou a divisão do mundo em zonas de influência.
A participação brasileira abriu, como ocorre tradicionalmente desde 1955, a sequência de discursos dos Estados-membros. A 81ª sessão reúne representantes de 193 países e tem como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Reforma da ONU
Lula afirmou que as Nações Unidas atravessam um de seus momentos mais críticos e voltou a defender mudanças no Conselho de Segurança. O presidente relacionou o aumento dos conflitos armados ao enfraquecimento dos mecanismos multilaterais e criticou a incapacidade do Conselho de Segurança de responder às principais crises internacionais.
“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.
A reforma do Conselho de Segurança é uma reivindicação histórica da diplomacia brasileira, que defende maior representação dos países em desenvolvimento na estrutura de decisões da ONU.
Guerras e diplomacia
Os conflitos internacionais ocuparam espaço relevante no pronunciamento. Lula tratou da situação no Oriente Médio, de Gaza, da Cisjordânia, das tensões envolvendo o Estreito de Ormuz e da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Ao comentar o conflito entre russos e ucranianos, defendeu uma saída negociada.
“A diplomacia é a única opção”, declarou.
Lula mencionou o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa articulada por Brasil e China, como exemplo de tentativa de construir canais de diálogo para a guerra na Ucrânia.
América Latina e soberania
A defesa da soberania foi um dos principais componentes políticos do discurso.
Lula criticou interferências estrangeiras em processos eleitorais e afirmou que os países latino-americanos devem ter autonomia para definir seus próprios caminhos políticos.
Também abordou Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba. Em relação à Venezuela, defendeu que o futuro do país seja decidido pelos próprios venezuelanos. Ao falar da Nicarágua, criticou impedimentos à participação da oposição nas eleições.
Combate ao crime organizado
O presidente também levou à ONU o debate sobre o avanço das organizações criminosas transnacionais. Lula defendeu maior cooperação internacional no controle das fronteiras, no combate ao tráfico de armas e no rastreamento do dinheiro movimentado pelas organizações criminosas.
O presidente citou a cooperação policial entre países amazônicos e iniciativas brasileiras voltadas ao enfrentamento das facções e da lavagem de dinheiro.
Clima e recursos naturais
Outro eixo do pronunciamento foi a crise climática. Lula defendeu que o tema permaneça entre as prioridades da agenda internacional e alertou para os efeitos dos eventos climáticos extremos, especialmente sobre as populações mais vulneráveis.
Também abordou a transição para uma economia de baixo carbono, a proteção das florestas tropicais e a exploração de minerais críticos e terras raras. Segundo a posição apresentada pelo presidente, a exploração desses recursos deve gerar empregos, tecnologia e desenvolvimento dentro do Brasil.
Desigualdade e trabalho
Lula relacionou desenvolvimento sustentável à redução das desigualdades e à ampliação dos investimentos em educação, saúde, geração de emprego e proteção social.
Também voltou a defender mudanças na jornada de trabalho, incluindo o fim da escala 6x1.
O presidente mencionou ainda iniciativas internacionais como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e políticas voltadas à redução das desigualdades.
Big techs, inteligência artificial e Pix
A regulação das grandes plataformas digitais e da Inteligência Artificial também entrou no discurso. Lula defendeu regras baseadas em responsabilidade e transparência para as empresas de tecnologia e tratou dos impactos das plataformas de apostas sobre o endividamento das famílias.
O presidente também mencionou a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e a remuneração de artistas e produtores de conteúdo.
Ao tratar do sistema financeiro, defendeu a manutenção do Pix como infraestrutura pública de pagamentos e afirmou que o Brasil não aceitará pressões para sua privatização.
Brasil abre debate da ONU
A 81ª Assembleia Geral foi aberta em 8 de setembro. O Debate Geral ocorre entre 22 e 28 de setembro e reúne chefes de Estado e de governo para apresentar as posições de seus países diante dos principais temas internacionais.
O Brasil ocupa tradicionalmente a primeira posição entre os Estados-membros na abertura dos discursos. Em 2026, Lula fez sua décima participação na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral da ONU.




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