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Já não se envelhece como antigamente: longevidade exige novas políticas públicas

há 3 minutos
3 min de leitura

 Pessoas com 60 anos ou mais eram 16,6% da população em 2025. Com mais brasileiros vivendo por mais tempo, saúde, trabalho, renda, mobilidade e cuidado entram no centro do debate público

Longevidade abre novas perspectivas de trabalho, autonomia e participação. Imagem: Pexels
Longevidade abre novas perspectivas de trabalho, autonomia e participação. Imagem: Pexels

A imagem da pessoa idosa como alguém que parou no tempo já não representa a diversidade da velhice no Brasil. Há quem continue trabalhando depois da aposentadoria, quem estude, pratique atividades físicas, viaje, desenvolva hobbies ou participe de projetos comunitários. Essa realidade convive, porém, com desigualdades de renda, acesso à saúde, autonomia e proteção social — e exige políticas públicas capazes de acompanhar as diferentes formas de envelhecer.


A mudança demográfica já aparece nos dados. Em 2025, pessoas com 60 anos ou mais representavam 16,6% da população brasileira, ante 11,3% em 2012, segundo a PNAD Contínua. No mesmo período, diminuiu a proporção de pessoas com menos de 40 anos.


A tendência deve continuar nas próximas décadas. A Agência Einstein, em reportagem publicada em junho de 2026, informa que o Brasil poderá ter mais de 65 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2050, cerca de 30% da população. Já as projeções do IBGE, que se estendem até 2070, estimam que essa faixa etária chegará a 37,8% dos habitantes naquele ano. São projeções, sujeitas a revisões conforme mudam as tendências de fecundidade, mortalidade e migração.


Uma velhice mais diversa


Viver mais abre possibilidades, mas não produz uma experiência única. Algumas pessoas chegam à velhice com saúde, renda e redes de apoio; outras enfrentam doenças, limitações, pobreza, solidão ou dependência de cuidados. A idade, por si só, não determina o que alguém pode fazer — e tratar todas as pessoas idosas como frágeis ou incapazes apaga suas diferenças e escolhas.


O etarismo, preconceito baseado na idade, também pode restringir oportunidades no trabalho e na vida social. Esse tipo de discriminação pode afetar a saúde mental, a convivência e a maneira como cada pessoa percebe o próprio envelhecimento. Combater estereótipos, portanto, também faz parte de criar condições para que as pessoas possam participar da sociedade em diferentes fases da vida.


Saúde e cuidado ao longo da vida


O envelhecimento amplia a necessidade de prevenção, acompanhamento contínuo e atenção integrada. O Ministério da Saúde estabelece que o SUS deve promover cuidado integral, autonomia e independência funcional, com avaliação das necessidades individuais e articulação entre saúde, assistência social e apoio às famílias.


Esse cuidado não se limita a consultas e hospitais. Inclui atenção básica acessível, prevenção de doenças e quedas, reabilitação, saúde mental, atendimento domiciliar e apoio a quem cuida. Uma política consistente precisa considerar também as pessoas idosas que vivem sozinhas ou que têm dificuldade para realizar atividades cotidianas.


A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, prevê atenção às pessoas idosas que necessitam de apoio nas atividades diárias e reconhece o cuidado como uma responsabilidade que deve ser compartilhada. A lei prevê ações em áreas como saúde, assistência social, trabalho, renda, cultura, esporte e mobilidade. O desafio é transformar essas diretrizes em serviços acessíveis e contínuos nos municípios.


Trabalho, renda e participação


Continuar trabalhando pode ser uma escolha, uma fonte de realização ou uma necessidade para complementar a renda. Por isso, políticas para a longevidade também precisam enfrentar a discriminação etária nas contratações, apoiar a qualificação profissional e criar condições para que a permanência no mercado de trabalho seja digna e segura.


A participação social inclui ainda o acesso à educação, à cultura, ao esporte, à convivência comunitária e às ferramentas digitais. Calçadas, transporte público, moradia e espaços de lazer acessíveis influenciam diretamente a autonomia. Essas medidas beneficiam pessoas idosas, mas também tornam as cidades mais acolhedoras para pessoas com deficiência, famílias com crianças e quem enfrenta limitações temporárias de mobilidade.


O envelhecimento entra no debate eleitoral


O tema tem peso também nas eleições gerais de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral registra 37.457.537 eleitores com 60 anos ou mais, equivalentes a 23,6% do eleitorado apto a votar em 4 de outubro. Em 2022, eram 32.891.438 pessoas nessa faixa etária.


O comparecimento às urnas em 2026 também pode ser utilizado pelo INSS como prova de vida de aposentados, pensionistas e outros beneficiários, por meio da consulta aos registros da Justiça Eleitoral. .


O número reforça a importância de cobrar propostas concretas das candidaturas, sem reduzir o envelhecimento a uma disputa por votos. O debate precisa abordar como ampliar o atendimento do SUS, apoiar cuidadores, garantir renda e oportunidades de trabalho, prevenir a violência contra pessoas idosas e preparar bairros e serviços públicos para uma população com mais diversidade de idades.


Já não se envelhece como antigamente — e o país também está mudando. Reconhecer a atividade, os projetos e a autonomia de muitas pessoas idosas é parte dessa nova perspectiva. Garantir direitos e cuidado a quem precisa deles é a outra. O desafio das próximas décadas será fazer com que viver mais venha acompanhado de dignidade, participação e escolhas reais.


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