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Eleger negacionistas climáticos aumentará ocorrência de desastres em nossas cidades

há 5 horas
4 min de leitura

Sabemos que as condições climáticas em diferentes regiões do planeta sempre mudaram, segundo ciclos que se repetiam, de tal modo que era mais ou menos possível prever a recorrência das chuvas intensas, ondas de calor e até secas prolongadas, e se preparar para elas. Por que, então, os cientistas, já há algum tempo, nos alertam acerca de desastres em proporções e frequência nunca vistos? 


É o que chamamos de mudança do clima ou, emergência climática, diante de eventos muito mais graves e frequentes que, não só, tem atingido lugares em todo o mundo, causando mortes, perdas materiais e danos irreparáveis às infraestruturas, como causam muitas incertezas em relação ao futuro das nossas cidades. 

Eleger negacionistas vai acelerar a ocorrência de desastres

Seus efeitos, tais como, elevação do nível do mar, causando ressacas; ondas de calor e longas estiagens; tempestades, causando inundações; aumento e dispersão de doenças contagiosas; redução da disponibilidade de água e de alimentos, já são realidade e ameaçam, em particular, as cidades, onde estão concentradas pessoas, infraestruturas e atividades econômicas. Não por acaso, elas têm sido consideradas locais privilegiados para o desenvolvimento de estratégias de redução tanto das causas, quanto dos efeitos de tais alterações, por meio de ações integradas de planejamento e de gestão. 


As causas dessas mudanças estão diretamente relacionadas às emissões de gases produzidos pelas indústrias e pelos veículos movidos a combustíveis fósseis como gasolina e diesel, mas também pelo agronegócio, pelas atividades minerárias e pelo desmatamento de nossas florestas. Reduzir essas emissões são metas de muitos países, incluindo o Brasil, que assinaram acordos internacionais, visando retardar o aumento acelerado das temperaturas no planeta. 


É o que chamamos de estratégias de mitigação que incluem a substituição de combustíveis fósseis por energias limpas, mas também a redução da poluição industrial, da degradação ambiental causada por atividades minerárias, desmatamentos e queimadas para pecuária e agricultura em larga escala. 


Compromissos assumidos em nível nacional devem ser, portanto, compartilhados e cumpridos pelos estados e municípios, envolvendo também as empresas e os cidadãos, para que sejam obtidos resultados ainda que a médio e longo prazos. Planos de Ação Climática, Planos de Redução e Gestão de Riscos e Planos de Contingência são alguns dos instrumentos de planejamento que todo ente federativo deveria ter.  


Adaptação das cidades

Mas é necessário também, ao mesmo tempo, adaptarmos nossas cidades aos desastres que já estão acontecendo, dando especial atenção às populações mais vulneráveis que já vivem em condições precárias nas encostas sujeitas a deslizamentos, várzeas e mangues sujeitos a inundações. 


Contudo, as soluções de adaptação são diversas e devem ser pensadas para cada tipo de risco climático, contexto e capacidade técnica e institucional para implementá-las. Vão desde obras de drenagem, saneamento e contenção nas ocupações, bairros populares e favelas, à intensificação da arborização urbana, aumento de áreas verdes, melhoria das calçadas e implantação de ciclovias por toda a cidade, incentivando caminhamentos a pé e a utilização de bicicletas como meio de transporte. 


Muitas dessas soluções são inspiradas nos ciclos da natureza, porque vão no sentido de reduzir os impactos da urbanização, devolvendo a capacidade do solo urbano de infiltrar parte da água da chuva que corre em grandes volumes e alta velocidade sobre os telhados, ruas asfaltadas e terrenos cimentados que predominam em nossas cidades. Telhados verdes, jardins de chuva e pavimentos drenantes, devem ser disseminados em construções e ruas de bairros de uma mesma bacia hidrográfica, podendo reduzir de forma significativa as enxurradas que vão parar nos córregos, em geral canalizados, provocando inundações. 


A aproximação do fenômeno climático conhecido como El Niño promete tempestades, vendavais e secas por todo o continente, exigindo providências urgentes, mesmo que emergenciais, como abrigos e planos de contingência. Isso tudo nos leva a refletir como a questão climática se apresenta como uma nova oportunidade de integrar ações para o enfrentamento de velhos problemas que tornaram nossas cidades tão desiguais e inviáveis. 


Soluções integradas de saneamento, habitação, mobilidade e meio ambiente, dentre outras, que tenham o ciclo hidrológico como fio condutor de planos, projetos e obras deveriam estar no dia a dia das administrações municipais.   


Além de questionarmos os nossos próprios hábitos de consumo que produzem tanto lixo, causando também doenças crônicas, temos que repensar a forma como construímos nossas cidades, canalizando córregos, destruindo nascentes e matas nativas e construindo muito, com concreto, vidro e asfalto, mesmo onde não é seguro viver. 


Por outro lado, agroflorestas, hortas comunitárias e quintais produtivos, disseminados no campo e na cidade, contribuem para a renda e a segurança alimentar de tantas famílias. Desenvolver e diversificar o comércio e os serviços locais é também uma estratégia que pode fazer com que as pessoas tenham que se deslocar menos para satisfazer suas necessidades quotidianas mais perto de casa. 


Políticos e negacionismo climático 

Mas o que fazer quando nos deparamos com políticos que negam a existência de mudanças no clima e agem como se nada estivesse acontecendo, incentivando a mineração e a agropecuária predatórias, o desmatamento em áreas de mananciais, serras, áreas protegidas e reservas indígenas? 


Como agir diante de governantes comprometidos apenas com o lucro das empresas, privatizando a exploração de bens comuns, como a água, riquezas minerais e energia, sem qualquer compromisso com aqueles que permanecem sem acesso a serviços básicos para se viver na cidade? 


Como entender gestores que continuam agindo no sentido contrário do que deveria ser feito, aumentando a densidade e a altura dos edifícios de luxo, a impermeabilização do solo em áreas já saturadas da cidade em detrimento da produção de moradias e da regularização fundiária com melhoria da infraestrutura nos bairros populares, ocupações e favelas? 


Como responder à demolição de ciclovias recém-construídas e aos gastos absurdos com a construção de viadutos e trincheiras que logo se tornam obsoletos, por incentivarem o uso de mais automóveis nas vias já congestionadas da cidade? 


Enquanto houver democracia, nossa arma continua sendo o voto. Eleger ou reeleger negacionistas, sem visão de futuro e sem responsabilidade social, comprometidos apenas com questões pessoais, lucro e interesses do mercado, só vai acelerar em vez de reduzir e adiar a ocorrência de desastres que, infelizmente, acabam por atingir de maneira mais dramática os mais pobres.


Fonte: Brasil de Fato

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