Como os drones transformam a guerra tradicional
- Redação RTN
- 28 de mai.
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Os primórdios da dronificação da guerra – leia-se do final dos anos 1990 à primeira década do século XXI – foram marcados por doutrinas centradas em sistemas de alto custo, reservados para operações de contrainsurgência e reconhecimento especializado. Era o tempo de ativos como o icônico General Atomics MQ-1 Predator, e o ainda em operação MQ-9 Reaper, com expectativa de ser retirado de serviço ao longo da década de 2030. No entanto, a guerra da Rússia contra a Ucrânia, bem como a movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, vêm produzindo uma acelerada mudança neste cenário, deixando para trás a indispensabilidade de ativos não tripulados de altíssimo custo, e adentrando rápido o campo da massificação, do emprego em grande volume de sistemas autônomos de baixo custo.
A convergência entre economias de escala favoráveis e a “democratização” tecnológica vem permitindo que nesse campo tanto atores estatais quanto não estatais exerçam poder de ataque operacionalmente decisivo, sem os enormes investimentos de capital historicamente associados à superioridade aérea convencional. Está em curso, então, uma evidente inversão da 16ª Lei de Augustine, segundo a qual o custo unitário de aeronaves militares cresce de forma exponencial a cada geração1.
Nos cenários da Ucrânia e do Irã, vemos essa mudança se articular por meio de um espectro amplo de capacidades, com particular destaque para plataformas “atritáveis” (unidades descartáveis e de uso massivo). Em uma guerra prolongada, enquanto a perda de um ativo de vigilância sofisticado representa um revés estratégico, o emprego de ativos de baixo custo permite a saturação do teatro de operações, sobrecarregando as defesas pela quantidade. Sistemas antiaéreos de elevadíssimo custo como o THAAD e o PAC-3 Patriot (US$ 12 milhões e US$ 4 milhões de dólares por míssil disparado, respectivamente) podem ser sobrepujados por centenas de drones, orçados na casa dos 20 a 50 mil dólares a unidade. Isso produz uma radical assimetria que coloca forças armadas responsáveis pela defesa de seus territórios do lado errado da curva de custos.
E se há uma referência dessa inversão paradigmática no poder aéreo, ela é representada pelo Shahed-136 iraniano. Apelidado, não sem razão, de “Kalashnikov dos drones”, ele oferece à Guarda Revolucionária Islâmica uma capacidade de projeção de força de longo alcance, com raio operacional de até 2.500 quilômetros e carga útil de aproximadamente 50 quilogramas, compensando em alguma medida a carência de uma força aérea moderna.
Com suporte das forças armadas russas, através de imagens de satélite em tempo real, sistemas de navegação resistentes a spoofing e jamming (interferências), e orientação tática sobre dimensionamento e posicionamento de enxames de drones, o Irã vem sendo muito bem-sucedido em aprofundar esse ecossistema ofensivo, consolidando a noção de precise mass como característica permanente do conflito do século XXI.
Em resposta, os Estados Unidos internalizaram as lições do teatro ucraniano e desenvolveram o Low-Cost Uncrewed Combat Attack System (LUCAS), produzido em apenas dezoito meses. O desenvolvimento do LUCAS tornou-se um incrível caso de inversão de papéis, no qual coube à potência líder em tecnologias militares – os Estados Unidos – aplicar engenharia reversa ao modelo iraniano, de modo a copiá-lo e produzir uma versão baseada nele, em larga escala.
Diante de ondas recordes de drones ofensivos que ameaçam esgotar seus estoques de mísseis Patriot e NASAMS, as Forças de Defesa Ucranianas, com suporte da OTAN, vêm, por sua vez, protagonizando uma revolução no domínio da interceptação, desenvolvendo o conceito de saturação do espaço por meio de “muros de drones” (drone wall), compostos por plataformas especializadas como o quadrirrotor Sting e o VB140 Flamingo. Tratam-se de aparelhos de custo baixíssimo (cerca de US$ 3 mil por unidade), capazes de negar espaço aéreo a drones atacantes (como o Shahed), virando mais uma vez a mesa em favor da defesa.
Mas, se a dronificação em sua etapa atual barateia e “democratiza” o acesso a ativos de alta letalidade, na outra ponta, o emprego de modelos de linguagem em operações de C5ISR (comando, controle, comunicações, computadores, ciberdefesa, inteligência, vigilância e reconhecimento) reforça a dimensão excludente e hierárquica do poder militar das grandes potências. A Operação Epic Fury contra o Irã vem representando uma prova de fogo para a integração de grandes modelos de linguagem (LLMs) na cadeia de tomada de decisão militar, tendo como protagonistas o Maven Smart System (Palantir Technologies) e o Claude (da Anthropic, substituído recentemente pelo ChatGPT da OpenAI, após controvérsia envolvendo o posicionamento da empresa quanto ao uso do LLM na ação militar contra solo iraniano). Esses modelos sintetizaram dados de satélites, SIGINT (inteligência de sinais), drones e sensores terrestres, permitindo que as forças dos EUA atingissem cerca de mil alvos no Irã nas primeiras 24 horas, um ritmo quase duas vezes superior ao do primeiro dia da invasão do Iraque, em 2003.
Essa aceleração vem produzindo o fenômeno da compressão de decisão, no qual a supervisão humana se torna um ato de “carimbar” as decisões tomadas pelos sistemas de IA, trocando a qualidade da decisão pela velocidade de resposta. Análises preliminares indicam que a morte de 160 civis no bombardeio da escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, foi resultado da classificação do edifício como alvo legítimo, baseada em informações obsoletas: sua conversão em escola uma década antes do ataque foi ignorada pelo modelo de linguagem. Nada sugere que mais mortes de civis serão evitadas, já que o emprego da inteligência artificial visa justamente reduzir o custo cognitivo da tomada de decisão por agentes humanos, e acelerá-la.
Assim, a guerra na terceira década do século XXI apresenta duas faces radicalmente assimétricas. De um lado, a dronificação massiva e de baixo custo nivela parcialmente o campo de batalha, permitindo que atores estatais periféricos e mesmo grupos não estatais desafiem potências convencionais com enxames de sistemas descartáveis; de outro, a integração de grandes modelos de linguagem em arquiteturas de C5ISR, que aprofunda um fosso tecnológico que apenas um punhado de potências tem condições de cruzar, dado o volume de capital, infraestrutura de dados e expertise institucional exigidos.
*1 Tratava-se de uma sátira, mas cheia de razão empírica. Norman Augustine, ex-CEO da Lockheed Martin afirmou nos anos 1980, que em 2054, caso mantida a tendência, o orçamento de defesa norte-americano seria suficiente para adquirir apenas uma única aeronave, a ser compartilhada por todas as forças armadas.
Fonte: Outras Palavras

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