Canetas para emagrecer não substituem mudança de hábitos, aponta estudo
Peso tende a voltar após a interrupção dos medicamentos, enquanto benefícios metabólicos também podem diminuir

Medicamentos usados no tratamento da obesidade, como semaglutida e tirzepatida, podem proporcionar uma redução significativa do peso, mas os resultados tendem a ser comprometidos quando o tratamento é interrompido sem mudanças duradouras no estilo de vida. Uma revisão de estudos publicada no BMJ reforça que alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico são fundamentais para a manutenção do peso no longo prazo.
A análise reuniu 37 estudos envolvendo mais de 9,3 mil adultos com sobrepeso ou obesidade. Os pesquisadores observaram que, após a suspensão dos medicamentos, os participantes recuperaram, em média, cerca de 0,4 kg por mês.
Durante o período de tratamento, a perda média foi de 8,3 kg, mais que o dobro da registrada nos grupos de controle. Depois da interrupção, porém, houve recuperação gradual do peso. Mantido o ritmo observado pelos pesquisadores, os participantes poderiam retornar ao peso inicial em aproximadamente um ano e sete meses.
Por que o peso pode voltar?
A explicação está relacionada, entre outros fatores, ao caráter crônico da obesidade. O organismo possui mecanismos biológicos que atuam para recuperar parte do peso perdido.
“Quando o tratamento é interrompido, a doença volta a se manifestar. O reganho de peso não significa falta de força de vontade ou pouco empenho do paciente. Na verdade, é uma resposta biológica do organismo, que tenta recuperar o peso perdido”, explica o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita.
Semaglutida e tirzepatida atuam sobre mecanismos hormonais relacionados à fome e à saciedade, reduzindo o apetite e contribuindo para a perda de peso. Com a suspensão da medicação, esses efeitos diminuem e o organismo pode voltar a favorecer o ganho de peso.
O problema é maior quando o uso do medicamento não é acompanhado de mudanças na alimentação e na rotina.
“Muitas pessoas apenas usam o remédio, comem menos porque o apetite diminuiu e emagrecem. Mas, se elas não mudam o padrão alimentar, não praticam atividade física regularmente e não fazem uma mudança comportamental, a tendência é recuperar boa parte do peso quando o medicamento é suspenso”, afirma Rosenbaum.
Benefícios à saúde também podem diminuir
O estudo mostrou ainda que não é apenas o peso que pode ser afetado. Melhoras observadas durante o tratamento em indicadores como glicemia, colesterol e pressão arterial também começaram a diminuir após a interrupção das medicações.
Por isso, os medicamentos não devem ser tratados como uma solução isolada para emagrecer.
“As mudanças no estilo de vida potencializam a perda de peso e aumentam as chances de manter os resultados no longo prazo”, afirma o endocrinologista. “Os medicamentos são uma ferramenta muito eficaz no tratamento da obesidade, mas fazem parte de uma estratégia mais ampla. Sozinhos, eles não conseguem sustentar a perda de peso por muito tempo.”
Alimentação, exercício, sono e controle do estresse
A manutenção do peso envolve diferentes fatores. Uma alimentação adequada, com proteínas e fibras, pode favorecer a saciedade e ajudar a reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados.
A atividade física regular também tem papel importante, especialmente para preservar a massa muscular, aumentar o gasto energético e contribuir para a saúde cardiovascular.
Sono adequado e controle do estresse completam essa estratégia. Dormir mal pode interferir nos mecanismos relacionados à fome e à saciedade, enquanto situações prolongadas de estresse podem favorecer episódios de alimentação emocional.
Nem todas as pessoas recuperam integralmente o peso perdido depois de interromper os medicamentos, e ainda não é possível prever com precisão quem conseguirá manter os resultados.
Segundo Rosenbaum, a tendência de reganho pode ser menor entre pessoas que apresentavam obesidade menos grave, tiveram perda de peso mais moderada e conseguiram incorporar hábitos saudáveis à rotina.
“O objetivo não deve ser apenas perder peso rapidamente, mas tratar uma doença crônica. As canetas para emagrecer fazem parte desse tratamento, mas o sucesso depende de uma estratégia de longo prazo, construída entre paciente, médico e equipe multiprofissional”, conclui.
Com informações da Agência Einstein




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