Canetas para emagrecer não substituem mudança de hábitos, aponta estudo
Peso tende a voltar após a interrupção dos medicamentos, enquanto benefícios metabólicos também podem diminuir

As canetas utilizadas no tratamento do diabetes e da obesidade ganharam espaço como medicamentos capazes de proporcionar uma redução significativa do peso. Mas, ao mesmo tempo em que estudos demonstram seus efeitos no emagrecimento e em outros indicadores de saúde, novas pesquisas reforçam um ponto importante: o medicamento não deve ser encarado como uma solução isolada.
A obesidade é uma doença crônica e seu tratamento pode exigir acompanhamento de longo prazo. Por isso, mudanças na alimentação, prática de atividade física, sono adequado e alterações comportamentais são componentes importantes da estratégia, inclusive para aumentar as chances de manutenção dos resultados.
“Quando o tratamento é interrompido, a doença volta a se manifestar. O reganho de peso não significa falta de força de vontade ou pouco empenho do paciente. Na verdade, é uma resposta biológica do organismo, que tenta recuperar o peso perdido”, explica o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita.
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos hormonais relacionados à fome e à saciedade, fazendo com que a pessoa sinta menos fome e consuma menos alimentos. Quando o tratamento é interrompido, parte desses efeitos desaparece e mecanismos do organismo que favorecem o ganho de peso podem voltar a atuar.
“Muitas pessoas apenas usam o remédio, comem menos porque o apetite diminuiu e emagrecem. Mas, se elas não mudam o padrão alimentar, não praticam atividade física regularmente e não fazem uma mudança comportamental, a tendência é recuperar boa parte do peso quando o medicamento é suspenso”, alerta Rosenbaum.
Obesidade avança no mundo
A discussão ganha importância diante do crescimento da obesidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) relaciona o excesso de peso e a obesidade a um risco maior de problemas como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, distúrbios musculoesqueléticos e alguns tipos de câncer.
O World Obesity Atlas 2025 projeta que o número de adultos vivendo com obesidade no mundo poderá passar de 524 milhões, em 2010, para cerca de 1,13 bilhão em 2030. A publicação estima ainda que o excesso de peso esteja associado a aproximadamente 1,6 milhão de mortes prematuras por doenças crônicas não transmissíveis a cada ano.
No Brasil, projeções da World Obesity Federation apontam que cerca de 29,7% dos adultos poderão viver com obesidade em 2030, o equivalente a aproximadamente 50 milhões de pessoas.
Os números ajudam a mostrar por que o tratamento não pode ser reduzido à busca por uma queda rápida na balança.
Peso volta gradualmente após suspensão
Uma revisão sistemática publicada no BMJ analisou 37 estudos envolvendo mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade e observou que os participantes recuperaram cerca de 0,4 kg por mês após a interrupção do tratamento.
Os trabalhos incluíram diferentes classes de medicamentos, desde opções mais antigas, como sibutramina e orlistate, até terapias mais recentes, como liraglutida, semaglutida e tirzepatida.
Em média, os participantes permaneceram 39 semanas em tratamento e foram acompanhados por outras 32 semanas depois da suspensão da medicação.
Durante o tratamento, a perda média chegou a 8,3 kg, mais que o dobro da observada nos grupos de controle. Depois da interrupção, entretanto, o peso voltou a aumentar gradualmente. Mantido o ritmo observado no estudo, os participantes retornariam ao peso inicial em aproximadamente um ano e sete meses.
Outro resultado chama atenção: benefícios metabólicos alcançados durante o tratamento, como melhorias na glicemia, no colesterol e na pressão arterial, também começaram a diminuir depois da suspensão dos medicamentos.
“As mudanças no estilo de vida potencializam a perda de peso e aumentam as chances de manter os resultados no longo prazo”, afirma Rosenbaum. “Os medicamentos são uma ferramenta muito eficaz no tratamento da obesidade, mas fazem parte de uma estratégia mais ampla. Sozinhos, eles não conseguem sustentar a perda de peso por muito tempo.”
Qualidade da alimentação também importa
Mudar os hábitos alimentares não significa apenas diminuir a quantidade de comida. A qualidade do que vai para o prato também é importante.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda que a alimentação seja baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, verduras, feijão, arroz, ovos, carnes, peixes e castanhas. A orientação é limitar os alimentos processados e evitar os ultraprocessados.
É importante fazer essa distinção. Nem todo alimento que passou por algum
processamento industrial é necessariamente inadequado. O problema está principalmente no consumo frequente de ultraprocessados.
Refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, macarrão instantâneo, embutidos, algumas refeições congeladas e outros produtos formulados industrialmente podem conter grandes quantidades de açúcar, gordura ou sódio, além de aditivos.
Por isso, simplesmente comer menos durante o uso da medicação, sem construir um padrão alimentar que possa ser mantido no longo prazo, pode dificultar a sustentação dos resultados depois da redução ou suspensão do medicamento.
Atividade física vai além da perda de peso
A prática regular de exercícios é outro componente do tratamento. Seus efeitos não se restringem ao gasto de calorias: a atividade física contribui para a saúde cardiovascular, ajuda na prevenção e controle de doenças crônicas e traz benefícios para a saúde mental.
Para adultos, a OMS recomenda de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa. A recomendação inclui também exercícios de fortalecimento dos principais grupos musculares em pelo menos dois dias da semana.
Isso não significa necessariamente frequentar uma academia todos os dias. Caminhar, pedalar, nadar e dançar são exemplos de atividades que podem contribuir para alcançar a recomendação semanal. Os exercícios de força também ganham importância durante o emagrecimento por ajudarem na preservação da massa muscular.
O problema é que boa parte da população ainda está distante dessas recomendações. Dados divulgados pela OMS apontam que 31% dos adultos no mundo — aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas — não atingiram os níveis recomendados de atividade física em 2022.
Sono e estresse entram na equação
A manutenção do peso também passa por outros aspectos da rotina. Dormir adequadamente é importante para mecanismos relacionados ao apetite e à saciedade. Já o controle do estresse pode ajudar a reduzir episódios de alimentação emocional.
Embora algumas pessoas consigam suspender a medicação sem recuperar todo o peso perdido, ainda não é possível prever com precisão quem apresentará esse comportamento. O organismo desenvolve mecanismos de defesa contra a perda de gordura, o que ajuda a explicar a dificuldade de manter o novo peso.
“Esses mecanismos foram importantes para a sobrevivência da espécie em períodos de escassez de alimentos. Hoje, eles dificultam a manutenção da perda de peso”, explica Rosenbaum.
Segundo o endocrinologista, o reganho tende a ser menor entre pessoas que perderam menos peso, apresentavam obesidade menos grave e conseguiram incorporar hábitos saudáveis de maneira consistente.
Tratamento precisa ser pensado no longo prazo
Os dados reforçam que as canetas podem ter papel relevante no tratamento da obesidade, mas não eliminam a necessidade de cuidar de outros fatores relacionados ao peso e à saúde.
Também é preciso evitar uma conclusão equivocada: recuperar peso após a suspensão não significa que o medicamento tenha falhado nem que o paciente simplesmente tenha de se esforçar mais. A própria natureza crônica da obesidade ajuda a explicar o fenômeno.
“O objetivo não deve ser apenas perder peso rapidamente, mas tratar uma doença crônica. As canetas para emagrecer fazem parte desse tratamento, mas o sucesso depende de uma estratégia de longo prazo, construída entre paciente, médico e equipe multiprofissional”, conclui Rosenbaum.
Por isso, a decisão de iniciar, manter, reduzir ou interromper medicamentos como semaglutida e tirzepatida deve ser individualizada e acompanhada por profissionais de saúde. Alimentação adequada, atividade física e mudanças comportamentais complementam o tratamento, mas não substituem automaticamente a medicação quando ela continua clinicamente indicada.
Com informações da Agência Einstein




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