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A decisão do Banco Central e o peso da narrativa do mercado


A redução feita pelo Banco Central em sua última reunião de apenas 0,25 ponto percentual na taxa Selic expõe o compromisso com o mercado e não com o povo brasileiro. O cenário já comporta uma mudança mais firme de rumo na direção de uma taxa Selic mais razoável. 


O Brasil continua convivendo com a segunda mais alta taxa de juros reais do mundo, o que mantém o custo do dinheiro em patamar proibitivo para o investimento produtivo, para a expansão das empresas e para o consumo das famílias. Trata-se de um modelo que, na prática, tira o potencial da  economia e transfere renda para o setor financeiro.


É preciso dizer com clareza: juros elevados não são neutros. Eles aumentam o custo do crédito, encarecem o capital de giro, pressionam cadeias produtivas inteiras e acabam se refletindo nos preços finais. Ou seja, alimentam pressões inflacionárias, ao mesmo tempo em que diminui o crescimento econômico.


Nesse contexto, uma redução de 0,50 ponto percentual seria não apenas possível, mas mais coerente com o cenário atual: desaceleração da inflação em diversos componentes, melhora das expectativas externas e redução de choques relevantes, como a queda recente do petróleo e a diminuição das tensões geopolíticas.


O que se observa, no entanto, é uma reação previsível da mídia corporativa e de setores ligados ao mercado financeiro — incluindo empresas de rádio, jornais econômicos e centros de análise — que imediatamente classificam qualquer flexibilização monetária como “erro” ou “risco inflacionário”. 


Esse discurso não é neutro. Ele reflete a visão de um segmento que se beneficia diretamente da manutenção de juros elevados, seja pela rentabilidade dos ativos financeiros, seja pelo local que o sistema de dívida pública ocupa na economia brasileira, onde 42,24% do orçamento federal executado no ano passado foi para pagar juros e amortizações da dívida, totalizando R$ 2,135 trilhões.


Boletim Focus

Outro ponto que precisa ser enfrentado é o peso dado ao Boletim Focus no processo decisório. Trata-se de uma pesquisa concentrada em cerca de 120 instituições do sistema financeiro e do mercado de capitais, ou seja, agentes diretamente inseridos na lógica da rentabilidade financeira. Não é razoável que a visão predominante sobre o futuro da inflação e dos juros venha quase exclusivamente de instituições que operam e lucram dentro desse próprio sistema, é o “torpe valendo da torpeza”. 


Uma política monetária realmente comprometida com o desenvolvimento nacional não pode se apoiar apenas na percepção de mercado. Precisa incorporar de forma mais ampla os efeitos sociais, produtivos e distributivos das decisões sobre juros — efeitos que atingem trabalhadores, indústria, comércio e o conjunto da economia real.


O Brasil não pode naturalizar um patamar tão elevado de juros como se fosse uma condição permanente. A redução firme da Selic é necessária, para que o país mantenha  uma trajetória de crescimento, com investimento produtivo, geração de empregos e ampliação da renda.


O debate sobre a Selic não é técnico apenas. Ele é profundamente político. Trata-se de escolher entre um modelo de economia financeirizada, sustentado por juros elevados e crescimento limitado, ou um modelo voltado à expansão produtiva, ao emprego e ao desenvolvimento.


O que está em jogo não é apenas a velocidade de um corte de 0,25 ou 0,50 ponto percentual. É o rumo da política econômica brasileira. 


O desafio é recolocar a política monetária a serviço de um projeto de desenvolvimento nacional mais equilibrado e inclusivo.


Fonte: Wagner Xavier, no Brasil de Fato

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