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Quando o bullying vira política: a distopia americana em sala de aula


Há um momento específico em que uma sociedade revela que algo essencial se rompeu. Nem sempre é um decreto, uma eleição ou uma crise econômica. Às vezes, esse sinal surge no lugar mais sensível possível: o pátio de uma escola. Quando crianças passam a repetir frases como “tomara que você seja deportado”, não se trata mais apenas de provocação infantil. Trata-se da tradução crua de uma política de Estado que desceu ao nível da linguagem cotidiana.


O novo bullying escolar nasce diretamente do discurso público. Ele não inventa o ódio — apenas o replica. A frase carrega, em poucas palavras, a noção de exclusão, perseguição e negação de pertencimento. Dizer a um colega que ele deve ser deportado equivale a afirmar que sua presença é ilegítima, que sua existência é um erro a ser corrigido. O que antes era apenas preconceito difuso agora assume forma administrativa, jurídica e moral.


Esse fenômeno revela com clareza a distopia americana contemporânea. A deportação deixa de ser um tema técnico de imigração e passa a ocupar o imaginário social como punição exemplar. Não é mais uma ação do Estado distante; é uma ameaça verbal, um instrumento simbólico de humilhação. Crianças aprendem cedo que há cidadãos “plenos” e outros provisórios. Que há vidas protegidas e vidas toleradas — até segunda ordem.


Quando esse tipo de violência verbal se instala nas escolas, o problema já ultrapassou o campo político. Ele se tornou cultural. O ambiente educacional, que deveria formar empatia e convivência, passa a reproduzir hierarquias de valor humano. A escola, que historicamente foi espaço de integração de filhos de imigrantes, transforma-se em um laboratório de exclusão. O bullying deixa de ser apenas social e passa a ser ideológico.


A distopia se aprofunda porque esse discurso não surge no vazio. Ele é alimentado por narrativas oficiais que associam imigração a ameaça, diversidade a decadência e direitos civis a privilégios indevidos. Ao ouvir diariamente que o “outro” é o problema, crianças apenas adaptam essa lógica ao seu universo. O recreio vira reflexo do noticiário. A ofensa vira política condensada em uma frase.


Nesse cenário, o medo se infiltra cedo. Famílias inteiras vivem sob a ansiedade permanente da denúncia, da separação, da expulsão. O trauma deixa de ser episódico e passa a ser estrutural. A democracia, por sua vez, vai sendo esvaziada por dentro, enquanto mantém sua aparência formal. Eleições seguem ocorrendo, instituições seguem de pé, mas o princípio básico de igualdade humana já não é compartilhado.


A tragédia da distopia americana é justamente essa: ela não se anuncia como ruptura, mas como normalidade. A exclusão vira piada. O preconceito vira opinião. A crueldade vira método. Quando uma criança aprende a desejar a deportação do colega, o país já falhou em sua função mais elementar — formar cidadãos, não inimigos internos.


O colapso do mito americano não acontece apenas nas fronteiras ou nos tribunais de imigração. Ele acontece quando o ódio vira linguagem aprendida, quando a política invade a infância e quando a sala de aula passa a ensinar, ainda que sem querer, que alguns pertencem menos que outros.


A distopia começa quando o Estado autoriza o medo — e se consolida quando a sociedade o repete sem questionar.


A opinião dos colunistas pode não ser a mesma dos editores do RTN

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