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Por que São Jorge se tornou uma das figuras mais presentes no cotidiano dos cariocas

No dia 23 de abril, milhares se reúnem no centro do Rio ou seguem em direção à Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino, na Zona Norte, para acompanhar a missa das 5h. Nos terreiros, soam os tambores para Ogum; nos bares, as festas são regadas a feijoada. 


Em diversos bairros do subúrbio carioca, a data é anunciada com uma estrondosa alvorada em homenagem ao Santo Guerreiro. Em 2019, São Jorge foi proclamado padroeiro do estado do Rio de Janeiro, que se somou a São Sebastião nas trincheiras.


A imagem do cavaleiro da Capadócia que enfrenta e derrota o dragão da maldade se tornou um dos símbolos mais importantes da identidade carioca, presente nas igrejas, nos terreiros, nos botecos, nas escolas de samba, nos azulejos sobre as portas das casas suburbanas. 


São Jorge habita o Rio de Janeiro o ano inteiro, uma devoção profundamente entranhada no cotidiano da cidade e observada pelos autores da plaquete Encruzilhadas de Jorge. A produção coletiva reúne contos que partem do imaginário do santo na cultura popular e terá lançamento nesta quinta (23), no tradicional Bar do Papa, em Cascadura.


“Vejo esse fenômeno como algo decorrente da força do catolicismo, do candomblé e da umbanda por aqui, mas também como uma identificação simbólica. Vivemos numa cidade desigual, onde o ‘corre’ é uma realidade para a maioria da população. São Jorge e Ogum são vistos como aliados nessa batalha diária, na luta contra os muitos dragões que a vida coloca diante de nós”, reflete um dos autores, o jornalista Marcelo Moutinho, ao Brasil de Fato.


Para Janaína Nascimento, mestra em relações étnico-raciais, a popularidade de São Jorge pode ser explicada pela força simbólica da sua história, que representa coragem diante das batalhas diárias e dialoga com pessoas de diferentes culturas e épocas. 


“No cotidiano do Rio de Janeiro, São Jorge se aproxima das pessoas nas pequenas e grandes batalhas diárias: enfrentar longas jornadas de trabalho, lidar com a violência urbana, buscar sustento, cuidar da família, resistir às desigualdades”, diz a escritora.


O culto a São Jorge, sincretizado como Ogum na umbanda e no candomblé, ganhou força no Rio de Janeiro pela resistência da população negra. A fusão entre a religiosidade africana e o catolicismo, enfatiza Nascimento, foi uma estratégia de sobrevivência durante o período escravocrata.


“Por mais que as pessoas soubessem que São Jorge não é Ogum e Ogum não é São Jorge, ele se torna, no imaginário popular, ao mesmo tempo, santo católico, orixá, símbolo de luta e de proteção. Alguém que atravessa diferentes crenças e une diferentes religiosidades por meio da fé e da esperança”, conclui.


Força do sincretismo

São Jorge aparece no sincretismo religioso como uma figura de múltiplas camadas. Na Bahia, por exemplo, é cultuado pelas religiões de matriz africana como Oxóssi, caçador. Já no Rio, em Recife e Porto Alegre, o orixá é associado a Ogum, guardião dos caminhos.


Segundo o pesquisador de religiões afrodiaspóricas Rogério Athayde, o sincretismo ocorre em toda a região diaspórica americana. Em Cuba, Ogum é sincretizado com São Pedro, São Pablo, Santiago Apóstolo, São João Batista e o arcanjo São Miguel, como consta no dicionário de mitologia cubana publicado por Gerardo Chaves e Manoel Rivero.


“Ogum é uma divindade extremamente importante e que é sincretizada com São Jorge, muito provavelmente, aqui no Rio de Janeiro, por conta desse caráter guerreiro, por ser aquele que derrota o dragão, portanto derrota a maldade, e essa associação acabou se tornando extremamente importante para a identidade de São Jorge e de Ogum”, explica Athayde.


Ao longo dos séculos, Jorge se tornou uma das figuras religiosas mais reconhecidas no mundo. Além do estado do Rio, também é padroeiro da Inglaterra, Etiópia e diversas outras cidades e países pelo mundo, como mostra o historiador Luiz Antonio Simas no recém-lançado livro São Jorge – O santo do povo e o povo do santo. 


A universalidade da luta do bem contra o mal produz uma narrativa simples e poderosa, facilmente reconhecida e amplamente somada a diferentes tradições, ressalta Janaína Nascimento. Fé que se manifesta em promessas, orações, velas acesas, medalhas no peito e na cultura popular.


“O povo carioca vê em São Jorge e em Ogum uma força que abre caminhos e dá coragem para seguir. É uma fé que não está distante: ela caminha junto, com seus fiéis e simpatizantes diariamente”, sintetiza a escritora ao Brasil de Fato.


Literatura na encruzilhada

A plaquete Encruzilhadas de Jorge, da editora Oficina Raquel, é a terceira da coleção que explora datas simbólicas como pontos de encontro entre literatura, cultura popular e experiência coletiva. A estreia foi dedicada a Cosme e Damião e a segunda voltada ao Natal. 


Com vozes diversas e estilos narrativos distintos, a plaquete tem textos de Marcelo Moutinho, Paula Gicovate, Erika Neves, Janaína Nascimento, Rogério Athayde e os textos de estreia de Raphael Wandermur e Vinícius Fernandes da Silva. 


Em cada história, o Santo Guerreiro aparece não apenas como figura religiosa, mas como símbolo cultural profundamente enraizado na vida brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, onde a devoção ganha contornos únicos.  


Fonte: Brasil de Fato

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