Alfabetização infantil no novo PNE coloca o futuro do país em debate no programa RTN Educação
- Redação RTN
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O programa RTN Educação — uma produção do canal RTN (Radar Tempo de Notícia) realizada em parceria com o Fórum Estadual de Educação, sob a coordenação do professor Valdeck Carneiro — trouxe para o centro do debate público um dos temas mais estratégicos para o desenvolvimento social e a redução das desigualdades no Brasil: a alfabetização de crianças no contexto do novo Plano Nacional de Educação (PNE).
Apresentado pelo jornalista Márcio Kerbel com a participação da jornalista Fátima Lacerda, a edição contou com a presença de duas especialistas na área: a professora Dra. Alexsandra Aguiar (doutora em Educação e pós-doutoranda em políticas públicas de alfabetização pela UFF) e a professora Dra. Bruna Molisani (doutora em Educação pela UFRJ e docente da FFP/UERJ). No centro da discussão, estiveram os novos marcos legais trazidos pela Lei nº 15.388, aprovada em abril de 2026, que institui o novo PNE e estabelece metas ousadas para a educação básica até 2036.
Metas ambiciosas e o retrato das desigualdades
Durante a entrevista, a professora Alexsandra Aguiar traçou um panorama estatístico e conceitual sobre a evolução dos índices de alfabetização no Brasil. Segundo os dados apresentados, em 2021 o país registrava apenas 36% das crianças alfabetizadas até o 2º ano do Ensino Fundamental. Atualmente, esse índice subiu para 66%.
O novo PNE estabelece uma meta intermediária de 80% de crianças alfabetizadas até 2030, projetando atingir os 100% até 2036. No entanto, Aguiar ponderou que o desafio vai além dos números. "A alfabetização atinge de maneira mais intensa as populações historicamente marginalizadas, especialmente as crianças negras, pobres, periféricas, do campo e o público-alvo da educação especial", destacou, reforçando que o tema deve ser encarado como uma questão de "justiça educacional" e não apenas pedagógica.
Por sua vez, a professora Bruna Molisani provocou uma reflexão sobre as métricas oficiais, citando a pesquisa Alfabetiza Brasil do Ministério da Educação (MEC). Molisani sublinhou a importância de compreender o que significa, na prática, estar alfabetizado hoje: a capacidade de ler pequenos textos, fazer inferências básicas em tirinhas e interagir com autonomia na cultura escrita. Ela classificou a meta de 100% até 2036 como "bastante ousada", dada a extensão continental e a profunda diversidade do país.
Conceitos em evolução e o pós-pandemia sob nova ótica
O debate também desmistificou os diferentes tipos de analfabetismo que coexistem na sociedade contemporânea: o absoluto, o funcional e o digital. Alexandra Aguiar explicou que o analfabetismo digital e o funcional geram novas formas de exclusão em um mundo cada vez mais conectado e mediado pela inteligência artificial, limitando o exercício pleno da cidadania e o acesso ao mercado de trabalho.
Ao serem questionadas sobre os impactos da pandemia da Covid-19, as opiniões trouxeram nuances importantes. Enquanto Aguiar apontou que o período de reclusão em casa ampliou o hiato de aprendizagem nas periferias devido à falta de mediação docente, Molisani sugeriu uma visão mais crítica e atualizada para o ano de 2026. A professora da UERJ lembrou que as crianças que hoje ingressam no 1º e 2º ano do Ensino Fundamental já passaram os últimos quatro anos frequentando regularmente a escola. Portanto, embora o isolamento social tenha deixado sequelas no desenvolvimento infantil e comportamental, a persistência dos baixos índices de alfabetização em 2026 deve ser atribuída a fatores estruturais e pedagógicos atuais do sistema de ensino, e não mais diretamente à pandemia .
O uso de tecnologias e a proibição de celulares nas escolas
A regulamentação das telas no ambiente escolar foi outro ponto alto do programa. Relembrando as restrições globais e a legislação brasileira recente que restringe o uso de dispositivos móveis em sala de aula, Bruna Molisani defendeu a separação clara entre "redes sociais" e "tecnologias pedagógicas".
Para Molisani, o celular frequentemente virou distração ou vetor de problemas como o cyberbullying, justificando limites. Contudo, ela ressaltou que ferramentas digitais bem direcionadas — como a digitação de textos compartilhados em nuvem — podem reduzir o esforço motor da criança na fase inicial, permitindo que ela foque sua energia cognitiva na organização das ideias e na produção textual. Ambas as especialistas concordaram, todavia, que a alfabetização digital esbarra em um problema crônico de infraestrutura: muitas escolas públicas ainda carecem de equipamentos básicos, como computadores e internet de qualidade.
Valorização docente e infraestrutura: os verdadeiros pilares
Na reta final do programa, as debatedoras convergiram no diagnóstico de que nenhuma meta do novo PNE será alcançada sem a devida valorização e formação dos professores. Bruna Molisani criticou a "responsabilização excessiva" lançada sobre os ombros dos docentes e apontou lacunas na formação acadêmica inicial (cursos de Pedagogia), que muitas vezes debatem a política educacional mas oferecem pouca bagagem sobre desenvolvimento infantil e psicologia da linguagem. Ela defendeu a necessidade de políticas públicas de formação continuada em serviço e a urgência de cuidar da saúde mental dos professores, o que inclui a revitalização dos espaços físicos das escolas, frequentemente degradados.
Alexsandra Aguiar endossou o coro, lembrando que o professor hoje atua em salas heterogêneas e lida com a inclusão escolar sem o suporte necessário do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Para ela, o novo PNE traz pontos positivos ao prever estratégias de valorização, mas estas precisam sair do papel e se traduzir em salários dignos e condições adequadas de trabalho.
Conclusão
Ao encerrar a transmissão, o jornalista Márcio Kerbel sintetizou o espírito do debate: "Discutir a alfabetização no novo Plano Nacional de Educação é discutir o futuro do Brasil". O programa deixou clara a mensagem de que a alfabetização plena na idade certa não é apenas uma métrica estatística a ser perseguida pelo Estado, mas o pilar fundamental para garantir dignidade, autonomia e igualdade de oportunidades para as próximas gerações de brasileiros.
Devido à complexidade e relevância dos tópicos, as convidadas e a produção já manifestaram o interesse em realizar uma segunda edição para aprofundar temas como métodos pedagógicos específicos e o desenvolvimento do pensamento crítico.
Assista ao programa completo no link: https://www.youtube.com/live/OXrkDsh0vUg




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