top of page

Niterói não conhece Nictheroy


Houve um tempo em que Niterói ainda era Nictheroy, com “th”, com presença, com identidade construída no cotidiano e não apenas no concreto. Um tempo em que a cidade não era apenas um endereço valorizado, mas uma experiência compartilhada.


Nictheroy não era só geografia. Era comportamento.


Era possível caminhar pela Praia de Icaraí altas horas da noite , com um violão nas mãos, sem medo, sem pressa, sem cálculo. Havia uma confiança silenciosa no espaço público. A cidade pertencia às pessoas, e as pessoas pertenciam à cidade.


Havia o trampolim de Icaraí, onde a juventude se encontrava e o mar era extensão natural da vida. Havia bares e restaurantes que não eram apenas lugares de consumo, mas de permanência.


O Le Village, em Itaipu, conhecido por muitos como “Le Vi Longe”, justamente pela distância, era destino. Não era um lugar de passagem, era um lugar de chegada. Funcionou por cerca de duas décadas, algo raro para a noite de Niterói.


No Centro, a Leiteria Brasil era parada obrigatória. E havia também aquele bar simples, sem nome que tenha atravessado o tempo, mas impossível de esquecer por quem viveu a cidade, onde se tomava Hidrovita e um inesquecível refresco de abacate. Um lugar que não precisava de identidade visual, porque já tinha identidade humana.


Na orla, o Bier Strand era ponto de encontro, pausa, conversa. Um espaço onde o tempo desacelerava e a cidade respirava.


E havia também espaços que formavam cultura, como o Top Discos, onde a música era descoberta, discutida, compartilhada, muito antes de qualquer algoritmo.


Mas havia também a noite.


Uma noite com identidade própria.


O Bedrock, em Charitas, com seu half-pipe, misturava atitude, música e comportamento. O Kool Ibiza, que depois se transformaria no Barthô, ajudava a consolidar uma geração. A Double Six, em Pendotiba, ligada ao ator Rômulo Arantes, reunia um público que buscava sofisticação e movimento.


Em São Francisco, a Madame Kaos era território da irreverência, da liberdade, dos modernos, frequentada por figuras como Isabelita dos Patins.


No Clube Naval, a matinê do Scaffo era rito de passagem. Ali começava a noite para muitos.


Em Itaipu, a Aquarius ousava. Com suas dançarinas em bolhas de plástico, criava um ambiente que misturava espetáculo e fantasia, mostrando que Niterói também sabia surpreender.


Outras casas como a Tubarão e a Piratas completavam esse circuito intenso, onde cada lugar tinha personalidade própria e frequentar uma ou outra era quase uma escolha de identidade. A Tubarão, em especial, carrega a lembrança do saudoso Julinho, figura ligada à casa e à atmosfera daquele tempo. Porque, no fundo, esses lugares nunca foram apenas paredes, música e luz, eram pessoas.


E, ao lado do Cinema Icaraí, existia o Pétit Paris.


Um piano bar de verdade. Com alma.


Ali, o piano não era decoração, era protagonista. Depois dos shows no Caio Martins, artistas passavam por lá e, sem formalidade, davam continuidade à noite. Sérgio Mendes, Biafra, Dalton e tantos outros circularam por aquele espaço onde a arte acontecia de forma espontânea.


Mas talvez mais marcantes do que os lugares fossem os personagens.


O homem que corria de costas.


O sujeito que atravessava a cidade vestido de indígena em sua bicicleta.


Histórias que circulavam de boca em boca, como os chamados “ladrões de cabelo”, entre a lenda urbana e a realidade.


E havia também os grandes encontros.


Os bailes do Clube Central, elegantes, cheios, com música ao vivo, onde a cidade se encontrava consigo mesma. Ali conviviam tradição, expectativa e pertencimento.


E, ao fim da noite, quase como um ritual silencioso, o trailer do Bigode no Mirante, onde hoje se encontra o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, onde muitos encerravam a madrugada com um lanche e mais uma conversa e alguns casais seguiam na pequena ladeira ao lado para a “ corrida de submarinos “ ( entendedores entenderão rsss ).


Esses lugares não eram apenas pontos no mapa.


Eram capítulos.


Hoje, Niterói continua bela, organizada, valorizada.


Mas parece, em alguma medida, distante de si mesma.


Os prédios cresceram. Os espaços foram modernizados. A cidade ganhou eficiência.

Mas perdeu algo mais difícil de reconstruir, perdeu a memória viva.


As boates fecharam. Os bares desapareceram. Os bailes acabaram. Os personagens deixaram de ser vistos.


A cidade que antes era palco tornou-se cenário.


E há uma diferença profunda nisso.


Porque o palco convida. O cenário apenas compõe.


Nictheroy não era perfeita. Mas era viva. Imperfeita, imprevisível, humana.


Niterói, hoje, muitas vezes parece apenas funcional.


A questão não é saudosismo. É identidade.


O que acontece com uma cidade que já não reconhece seus próprios espaços, seus próprios encontros, suas próprias histórias?


Talvez ainda haja tempo de recuperar algo, não os lugares que já se foram, nem as noites que não voltam, mas a capacidade de valorizar o encontro, o inesperado, o humano.


Porque Nictheroy não desapareceu completamente. Ela apenas deixou de ser lembrada.

E uma cidade que não se lembra… corre o risco de não se reconhecer.


Zé Maia

Comentários


Cópia de CAPITAL POLÍTICO (300 x 250 px).png
Ativo 4_2x.png

© 2023 | TODOS OS CONTEÚDOS DO RADAR TEMPO DE NOTÍCIA PODEM SER

REPRODUZIDOS DESDE QUE NÃO SEJAM ALTERADOS E QUE SE DÊEM OS DEVIDOS CRÉDITOS.

  • https://api.whatsapp.com/send?phone=552198035-5703
  • YouTube
  • Instagram
  • Facebook
bottom of page